Por amor e zelo em esclarecer a verdade, os seguintes pontos serão debatidos em Wittenberg, sob a presidência do Reverendo Padre Martinho Lutero, Mestre de Artes e de Sagrada Teologia, e leitor ordinário da mesma nesta instituição.
1. Nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo, ao dizer "Fazei penitência" (Penitentiam agite), etc., quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.
2. Esta palavra não pode ser entendida como a penitência sacramental (isto é, da confissão e da satisfação que se realiza pelo ministério dos sacerdotes).
3. Contudo, não visa ela apenas à [penitência] interior; pelo contrário, a interior é nula se não operar, externamente, variadas mortificações da carne.
4. Permanece, portanto, a pena enquanto permanece o ódio de si mesmo (odium sui) (isto é, a verdadeira penitência interior), a saber, até a entrada no reino dos céus.
5. O papa não quer nem pode remitir quaisquer penas, exceto aquelas que impôs ou por seu próprio arbítrio ou pelo arbítrio dos cânones.
6. O papa não pode remitir culpa alguma senão declarando e confirmando que foi remitida por Deus; ou, certamente, remitindo os casos a si reservados, os quais, se forem desprezados, fazem com que a culpa permaneça inteiramente.
7. A ninguém absolutamente Deus perdoa a culpa sem que, ao mesmo tempo, o submeta, humilhado em tudo, ao sacerdote, seu vigário.
8. Os cânones penitenciais são impostos apenas aos vivos, e nada deve ser imposto aos moribundos segundo os mesmos.
9. Por isso, o Espírito Santo nos faz bem na pessoa do papa ao excetuar sempre, em seus decretos, o artigo da morte e da necessidade.
10. Ignorantes e maus são os atos daqueles sacerdotes que reservam aos moribundos penitências canônicas para o purgatório.
11. Aquele joio (zizania) de transmutar a pena canônica em pena do purgatório parece certamente ter sido semeado enquanto os bispos dormiam.
12. Antigamente, as penas canônicas eram impostas não depois, mas antes da absolvição, como provas da verdadeira contrição.
13. Os moribundos pela morte tudo pagam e já estão mortos para as leis dos cânones, possuindo por direito a isenção delas.
14. A saúde espiritual ou caridade imperfeita do moribundo traz necessariamente consigo grande temor, e tanto maior quanto menor ela mesma for.
15. Este temor e horror bastam por si sós (para calar outras coisas) para constituir a pena do purgatório, visto que está muito próximo do horror do desespero.
16. O inferno, o purgatório e o céu parecem diferir assim como diferem o desespero, o quase desespero e a segurança.
17. Parece necessário que, para as almas no purgatório, assim como deve diminuir o horror, assim deve aumentar a caridade.
18. E não parece provado, por quaisquer razões ou pelas Escrituras, que elas estejam fora do estado de mérito ou de crescimento na caridade.
19. Tampouco parece provado que estejam todas elas certas e seguras de sua bem-aventurança, ainda que nós estejamos inteiramente certos disso.
20. Portanto, o papa, por remissão plenária de todas as penas, não entende simplesmente todas, mas apenas aquelas impostas por ele mesmo.
21. Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que pelas indulgências do papa o homem é libertado de toda pena e salvo.
22. Com efeito, nenhuma pena o papa perdoa às almas no purgatório que nesta vida devessem ter pago segundo os cânones.
23. Se alguma remissão de absolutamente todas as penas pode ser dada a alguém, é certo que ela não é dada senão aos mais perfeitos, isto é, a pouquíssimos.
24. Por isso, a maior parte do povo é necessariamente enganada por aquela indistinta e magnífica promessa de pena absolvida.
25. O mesmo poder que o papa tem sobre o purgatório em termos gerais, tem-no também qualquer bispo e pároco em sua diocese e paróquia em particular.
26. Excelente é o que faz o papa ao dar às almas a remissão não pelo poder das chaves (que ele não possui [no purgatório]), mas por meio de sufrágio.
27. Pregam doutrina de homens os que dizem que, tão logo a moeda lançada na caixa tilintar, a alma voa para fora [do purgatório].
28. Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa, o ganho (questum) e a cupidez (avariciam) podem aumentar; o sufrágio da Igreja, porém, depende unicamente do arbítrio de Deus.
29. Quem sabe se todas as almas no purgatório querem ser resgatadas, como se narra ter acontecido com São Severino e São Pascoal?
30. Ninguém está seguro da verdade de sua própria contrição, muito menos da obtenção da remissão plenária.
31. Tão raro quanto um verdadeiro penitente é aquele que verdadeiramente adquire as indulgências, isto é, raríssimo.
32. Serão condenados eternamente, juntamente com seus mestres, aqueles que, por cartas de indulgência, creem-se seguros de sua salvação.
33. Deve-se precaver extremamente contra aqueles que dizem que as indulgências do papa são aquele inestimável dom de Deus pelo qual o homem é reconciliado com Deus.
34. Pois essas graças de indulgência dizem respeito apenas às penas de satisfação sacramental estabelecidas por homens.
35. Pregam doutrina não cristã aqueles que ensinam que, para os que pretendem resgatar almas ou comprar privilégios confessionais, a contrição não é necessária.
36. Qualquer cristão que sinta verdadeira compunção tem direito à remissão plenária da pena e da culpa, mesmo sem cartas de indulgência.
37. Qualquer cristão verdadeiro, seja vivo ou morto, participa de todos os bens de Cristo e da Igreja, que lhe são concedidos por Deus, mesmo sem cartas de indulgência.
38. Contudo, a remissão e a participação distribuídas pelo papa de modo algum devem ser desprezadas, pois, como eu disse, constituem a declaração da remissão divina.
39. É dificílimo, mesmo para os mais doutos teólogos, exaltar simultaneamente perante o povo a generosidade das indulgências e a verdade da contrição.
40. A verdade da contrição busca e ama as penas, ao passo que a generosidade das indulgências as afrouxa e faz com que sejam odiadas, ou, pelo menos, dá ocasião para isso.
41. Devem-se pregar com cautela as indulgências apostólicas, para que o povo não as compreenda falsamente como preferíveis às outras boas obras de caridade.
42. Deve-se ensinar aos cristãos que não é intenção do papa que a compra de indulgências seja, sob qualquer aspecto, comparada às obras de misericórdia.
43. Deve-se ensinar aos cristãos que aquele que dá ao pobre ou empresta ao necessitado faz melhor do que se comprasse indulgências.
44. Pois, mediante a obra de caridade, a caridade cresce e o homem se torna melhor, ao passo que, pelas indulgências, ele não se torna melhor, mas apenas mais livre da pena.
45. Deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um necessitado e, ignorando-o, gasta com indulgências, adquire para si não as indulgências do papa, mas a ira de Deus.
46. Deve-se ensinar aos cristãos que, a menos que abundem em supérfluos, são obrigados a reter o necessário para as necessidades de sua casa e de forma alguma esbanjá-lo com indulgências.
47. Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de indulgências é livre, não obrigatória.
48. Deve-se ensinar aos cristãos que o papa, ao conceder indulgências, assim como necessita mais, assim também deseja mais uma oração devota em seu favor do que dinheiro pronto.
49. Deve-se ensinar aos cristãos que as indulgências do papa são úteis se nelas não depositarem confiança, mas nocivíssimas se, por causa delas, perderem o temor de Deus.
50. Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa conhecesse as extorsões dos pregadores de indulgências, preferiria que a Basílica de São Pedro fosse reduzida a cinzas a ser edificada com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.
51. Deve-se ensinar aos cristãos que o papa, assim como é seu dever, assim também quereria, mesmo que para isso fosse necessário vender a Basílica de São Pedro, dar do seu próprio dinheiro àqueles de quem muitos pregadores de indulgências extorquem riquezas.
52. Vã é a confiança na salvação por meio de cartas de indulgência, mesmo que o comissário ou até mesmo o próprio papa empenhasse sua alma como garantia por elas.
53. Inimigos de Cristo e do papa são aqueles que, para pregar as indulgências, ordenam que a palavra de Deus cale inteiramente em outras igrejas.
54. Injúria se faz à palavra de Deus quando, no mesmo sermão, se dedica tempo igual ou maior às indulgências do que a ela.
55. A intenção do papa necessariamente é que, se as indulgências (que são o mínimo) são celebradas com um único sino, uma única pompa e cerimônia, o Evangelho (que é o máximo) deve ser pregado com cem sinos, cem pompas e cem cerimônias.
56. Os tesouros da Igreja, dos quais o papa concede as indulgências, não são suficientemente nomeados nem conhecidos entre o povo de Cristo.
57. É evidente que, decerto, não são de natureza temporal, dado que muitos dos pregadores não os distribuem com facilidade, mas apenas os ajuntam.
58. Tampouco são os méritos de Cristo e dos santos, pois estes sempre operam, sem o papa, a graça para o homem interior, e a cruz, a morte e o inferno para o homem exterior.
59. São Lourenço disse que os pobres da Igreja eram os seus tesouros, mas falou segundo o uso do termo em seu tempo.
60. Sem temeridade dizemos que as chaves da Igreja (concedidas pelo mérito de Cristo) constituem esse tesouro.
61. Pois é claro que para a remissão das penas e dos casos reservados basta apenas o poder do papa.
62. O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.
63. Este [tesouro], contudo, é merecidamente o mais odioso, pois dos primeiros faz os últimos.
64. Mas o tesouro das indulgências é merecidamente o mais grato, pois dos últimos faz os primeiros.
65. Portanto, os tesouros do Evangelho são redes com as quais antigamente se pescavam homens de riquezas.
66. Já os tesouros das indulgências são redes com as quais hoje se pescam as riquezas dos homens.
67. As indulgências que os pregadores proclamam aos brados como as maiores graças são entendidas como tais verdadeiramente no que concerne à promoção do ganho.
68. Contudo, na realidade, são mínimas quando comparadas à graça de Deus e à piedade da cruz.
69. Os bispos e párocos são obrigados a admitir com toda a reverência os comissários das indulgências apostólicas.
70. Mas ainda mais obrigados estão a vigiar com todos os olhos e a atentar com todos os ouvidos para que tais comissários não preguem seus próprios sonhos em vez da comissão do papa.
71. Quem falar contra a verdade das indulgências apostólicas, seja anátema e maldito.
72. Aquele, porém, que se insurgir contra a luxúria e a licença das palavras do pregador de indulgências, seja bendito.
73. Assim como o papa fulmina justamente aqueles que, em detrimento do comércio de indulgências, maquinam por qualquer artifício.
74. Muito mais pretende fulminar aqueles que, sob o pretexto das indulgências, maquinam em detrimento da santa caridade e da verdade.
75. Pensar que as indulgências papais são tão grandes que poderiam absolver um homem mesmo que, por uma impossibilidade, tivesse violado a Mãe de Deus, é demência.
76. Dizemos, ao contrário, que as indulgências papais não podem tirar nem o mínimo dos pecados veniais no que concerne à culpa.
77. Dizer que São Pedro, se hoje fosse papa, não poderia conceder maiores graças, é uma injúria a São Pedro e ao papa.
78. Dizemos, ao contrário, que tanto este quanto qualquer outro papa tem graças maiores, a saber: o Evangelho, as virtudes, os dons de curar, etc., conforme 1 Coríntios 12.
79. Dizer que a cruz erguida de forma conspícua com as armas papais equivale à cruz de Cristo é blasfêmia.
80. Prestarão contas os bispos, párocos e teólogos que permitem que tais sermões sejam proferidos ao povo.
81. Esta pregação licenciosa de indulgências faz com que não seja fácil, mesmo a homens doutos, defender a dignidade do papa contra as calúnias ou, certamente, contra as argutas perguntas dos leigos.
82. A saber: "Por que o papa não esvazia o purgatório por causa da santíssima caridade e da extrema necessidade das almas — que seria a causa mais justa de todas — se ele redime infinitas almas por causa do dinheiro funestíssimo para a construção da basílica — que é uma causa levíssima?"
83. Do mesmo modo: "Por que continuam as exéquias e os aniversários dos falecidos e por que o papa não devolve ou não permite que se recuperem os benefícios instituídos em favor deles, dado que já é uma injustiça orar pelos redimidos?"
84. Do mesmo modo: "Que nova piedade é esta de Deus e do papa que, por dinheiro, concedem a um ímpio e inimigo resgatar uma alma piedosa e amiga de Deus, e contudo, pela própria necessidade dessa alma piedosa e dileta, não a resgatam por gratuita caridade?"
85. Do mesmo modo: "Por que os cânones penitenciais, de fato e por desuso já há muito revogados e mortos, são ainda assim resgatados por dinheiro mediante a concessão de indulgências, como se estivessem plenamente vivos?"
86. Do mesmo modo: "Por que o papa, cujas riquezas hoje são mais opulentas do que as dos mais ricos Crassos, não constrói com seu próprio dinheiro, em vez do dinheiro dos fiéis pobres, ao menos esta única Basílica de São Pedro?"
87. Do mesmo modo: "O que perdoa ou distribui o papa àqueles que, por contrição perfeita, já têm direito à remissão plenária e à participação total?"
88. Do mesmo modo: "Que maior bem se acrescentaria à Igreja se o papa, que o faz uma única vez, concedesse estas remissões e participações cem vezes por dia a qualquer fiel?"
89. "Dado que o papa busca a salvação das almas por meio de indulgências mais do que de dinheiro, por que suspende as cartas e indulgências já outrora concedidas, se são igualmente eficazes?"
90. Reprimir estes argumentos tão meticulosos dos leigos apenas pelo poder, sem apresentar razões para desfazê-los, é expor a Igreja e o papa ao riso dos inimigos e tornar infelizes os cristãos.
91. Sim, portanto, as indulgências fossem pregadas segundo o espírito e a mente do papa, todas essas objeções seriam facilmente resolvidas, ou melhor, nem existiriam.
92. Afastem-se, portanto, todos aqueles profetas que dizem ao povo de Cristo "Paz, paz", e não há paz.
93. Que progridam todos aqueles profetas que dizem ao povo de Cristo "Cruz, cruz", e não há cruz.
94. Devem-se exortar os cristãos a que se esforcem por seguir a Cristo, sua cabeça, através de penas, mortes e infernos.
95. E que confiem entrar no céu mais por meio de muitas tribulações do que pela segurança da paz.
As 95 Teses foram afixadas na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, na Alemanha, no dia 31 de outubro de 1517. O que começou como um convite em latim para um debate acadêmico restrito sobre a venda de indulgências, a prática de cobrar dinheiro em troca do perdão dos pecados, rapidamente saiu do controle do próprio autor.
Graças à recente invenção da prensa de Gutenberg, o documento foi copiado, traduzido para o alemão e espalhado por toda a Europa em questão de semanas. Esse texto curto e afiado não apenas rachou a hegemonia da Igreja no Ocidente, mas encerrou simbolicamente a Idade Média, acendendo o estopim da Reforma Protestante e forjando o alicerce do pensamento ocidental moderno.
Nota ao Leitor: As 95 teses em latim estão no fim desta página.
Clique no primeiro botão logo abaixo, escrito >> AS 95 TESES | PORTUGUÊS E LATIM | PDF << e baixe o PDF completo contendo as 95 teses escritas na íntegra em português e em latim.
Dominus et magister noster Iesus Christus dicendo ‘Penitentiam agite &c.’ omnem vitam fidelium penitentiam esse voluit.
Quod verbum de penitentia sacramentali (id est confessionis et satisfactionis, que sacerdotum ministerio celebratur) non potest intelligi.
Non tamen solam intendit interiorem, immo interior nulla est, nisi foris operetur varias carnis mortificationes.
Manet itaque pena, donec manet odium sui (id est penitentia vera intus), scilicet usque ad introitum regni celorum.
Papa non vult nec potest ullas penas remittere preter eas, quas arbitrio vel suo vel canonum imposuit.
Papa non potest remittere ullam culpam nisi declarando, et approbando remissam a deo Aut certe remittendo casus reservatos sibi, quibus contemptis culpa prorsus remaneret.
Nulli prorus remittit deus culpam, quin simul eum subiiciat humiliatum in omnibus sacerdoti suo vicario.
Canones penitentiales solum viventibus sunt impositi nihilque morituris secundum eosdem debet imponi.
Inde bene nobis facit spiritussanctus in papa excipiendo in suis decretis semper articulum mortis et necessitatis.
Indocte et male faciunt sacerdotes ii, qui morituris penitentias canonicas in purgatorium reservant.
Zizania illa de mutanda pena Canonica in penam purgatorii videntur certe dormientibus episcopis seminata.
Olim pene canonice non post, sed ante absolutionem imponebantur tanquam tentamenta vere contritionis.
Morituri per mortem omnia solvunt et legibus canonum mortui iam sunt, habentes iure earum relaxationem.
Imperfecta sanitas seu charitas morituri necessario secum fert magnum timorem, tantoque maiorem, quanto minor fuerit ipsa.
Hic timor et horror satis est se solo (ut alia taceam) facere penam purgatorii, cum sit proximus desperationis horrori.
Videntur infernus, purgaturium, celum differre, sicut desperatio, prope desperatio, securitas differunt.
Necessarium videtur animabus in purgatorio sicut minni horrorem ita augeri charitatem.
Nec probatum videtur ullis aut rationibus aut scripturis, quod sint extra statum meriti seu augende charitatis.
Nec hoc probatum esse videtur, quod sint de sua beatitudine certe et secure, saltem omnes, licet nos certissimi simus.
Igitur papa per remissionem plenariam omnium penarum non simpliciter omnium intelligit, sed a seipso tantummodo impositarum.
Errant itaque indulgentiarum predicatores ii, qui dicunt per pape indulgentias hominem ab omni pena solvi et salvari.
Quin nullam remittit animabus in purgatorio, quam in hac vita debuissent secundum Canones solvere.
Si remissio ulla omnium omnino penarum potest alicui dari, certum est eam non nisi perfectissimis, i.e. paucissimis, dari.
Falli ob id necesse est maiorem partem populi per indifferentem illam et magnificam pene solute promissionem.
Qualem potestatem habet papa in purgatorium generaliter, talem habet quilibet Episcopus et Curatus in sua diocesi et parochia specialiter.
Optime facit papa, quod non potestate clavis (quam nullam habet) sed per modum suffragii dat animabus remissionem.
Hominem predicant, qui statim ut iactus nummus in cistam tinnierit evolare dicunt animam.
Certum est, nummo in cistam tinniente augeri questum et avariciam posse: suffragium autem ecclesie est in arbitrio dei solius.
Quis scit, si omnes anime in purgatorio velint redimi, sicut de s. Severino et Paschali factum narratur.
Nullus securus est de veritate sue contritionis, multominus de consecutione plenarie remissionis.
Quam rarus est vere penitens, tam rarus est vere indulgentias redimens, i. e. rarissimus.
Damnabuntur ineternum cum suis magistris, qui per literas veniarum securos sese credunt de sua salute.
Cavendi sunt nimis, qui dicunt venias illas Pape donum esse illud dei inestimabile, quo reconciliatur homo deo.
Gratie enim ille veniales tantum respiciunt penas satisfactionis sacramentalis ab homine constitutas.
Non christiana predicant, qui docent, quod redempturis animas vel confessionalia non sit necessaria contritio.
Quilibet christianus vere compunctus habet remissionem plenariam a pena et culpa etiam sine literis veniarum sibi debitam.
Quilibet versus christianus, sive vivus sive mortuus, habet participationem omnium bonorum Christi et Ecclesie etiam sine literis veniarum a deo sibi datam.
Remissio tamen et participatio Pape nullo modo est contemnenda, quia (ut dixi) est declaratio remissionis divine.
Difficillimum est etiam doctissimis Theologis simul extollere veniarum largitatem et contritionis veritatem coram populo.
Contritionis veritas penas querit et amat, Veniarum autem largitas relaxat et odisse facit, saltem occasione.
Caute sunt venie apostolice predicande, ne populus false intelligat eas preferri ceteris bonis operibus charitatis.
Docendi sunt christiani, quod Pape mens non est, redemptionem veniarum ulla ex parte comparandam esse operibus misericordie.
Docendi sunt christiani, quod dans pauperi aut mutuans egenti melius facit quam si venias redimereet.
Quia per opus charitatis crescit charitas et fit homo melior, sed per venias non fit melior sed tantummodo a pena liberior.
Docendi sunt christiani, quod, qui videt egenum et neglecto eo dat pro veniis, non idulgentias Pape sed indignationem dei sibi vendicat.
Docendi sunt christiani, quod nisi superfluis abundent necessaria tenentur domui sue retinere et nequaquam propter venias effundere.
Docendi sunt christiani, quod redemptio veniarum est libera, non precepta.
Docendi sunt christiani, quod Papa sicut magis eget ita magis optat in veniis dandis pro se devotam orationem quam promptam pecuniam.
Docendi sunt christiani, quod venie Pape sunt utiles, si non in cas confidant, Sed nocentissime, si timorem dei per eas amittant.
Docendi sunt christiani, quod si Papa nosset exactiones venialium predicatorum, mallet Basilicam s. Petri in cineres ire quam edificari cute, carne et ossibus ovium suarum.
Docendi sunt christiani, quod Papa sicut debet ita vellet, etiam vendita (si opus sit) Basilicam s. Petri, de suis pecuniis dare illis, a quorum plurimis quidam concionatores veniarum pecuniam eliciunt.
Vana est fiducia salutis per literas veniarum, etiam si Commissarius, immo Papa ipse suam animam pro illis impigneraret.
Hostes Christi et Pape sunt ii, qui propter venias predicandas verbum dei in aliis ecclesiis penitus silere iubent.
Iniuria fit verbo dei, dum in eodem sermone equale vel longius tempus impenditur veniis quam illi.
Mens Pape necessario est, quod, si venie (quod minimum est) una campana, unis pompis et ceremoniis celebrantur, Euangelium (quod maximum est) centum campanis, centum pompis, centum ceremoniis predicetur.
Thesauri ecclesie, unde Pape dat indulgentias, neque satis nominati sunt neque cogniti apud populum Christi.
Temporales certe non esse patet, quod non tam facile eos profundunt, sed tantummodo colligunt multi concionatorum.
Nec sunt merita Christi et sanctorum, quia hec semper sine Papa operantur gratiam hominis interioris et crucem, mortem infernumque exterioris.
Thesauros ecclesie s. Laurentius dixit esse pauperes ecclesie, sed locutus est usu vocabuli suo tempore.
Sine temeritate dicimus claves ecclesie (merito Christi donatas) esse thesaurum istum.
Clarum est enim, quod ad remissionem penarum et casuum sola sufficit potestas Pape.
Verus thesaurus ecclesie est sacrosanctum euangelium glorie et gratie dei.
Hic autem est merito odiosissimus, quia ex primis facit novissimos.
Thesaurus autem indulgentiarum merito est gratissimus, quia ex novissimis facit primos.
Igitur thesauri Euangelici rhetia sunt, quibus olim piscabantur viros divitiarum.
Thesauri indulgentiarum rhetia sunt, quibus nunc piscantur divitias virorum.
Indulgentie, quas concionatores vociferantur maximas gratias, intelliguntur vere tales quoad questum promovendum.
Sunt tamen re vera minime ad gratiam dei et crucis pietatem comparate.
Tenentur Episcopi et Curati veniarum apostolicarum Commissarios cum omni reverentia admittere.
Sed magis tenentur omnibus oculis intendere, omnibus auribus advertere, ne pro commissione Pape sua illi somnia predicent.
Contra veniarum apostolicarum veritatem qui loquitur, sit ille anathema et maledictus.
Qui vero, contra libidinem ac licentiam verborum Concionatoris veniarum curam agit, sit ille benedictus.
Sicut Papa iuste fulminat eos, qui in fraudem negocii veniarum quacunque arte machinantur.
Multomagnis fulminare intendit eos, qui per veniarum pretextum in fraudem sancte charitatis et veritatis machinantur.
Opinari venias papales tantas esse, ut solvere possint hominem, etiam si quis per impossibile dei genitricem violasset, Est insanire.
Dicimus contra, quod venie papales nec minimum venialium peccatorum tollere possint quo ad culpam.
Quod dicitur, nec si s. Petrus modo Papa esset maiores gratias donare posset, est blasphemia in sanctum Petrum et Papam.
Dicimus contra, quod etiam iste et quilibet papa maiores habet, scilicet Euangelium, virtutes, gratias, curationum &c. ut 1.Co.XII.
Dicere, Crucem armis papalibus insigniter erectam cruci Christi equivalere, blasphemia est.
Rationem reddent Episcopi, Curati et Theologi, Qui tales sermones in populum licere sinunt.
Facit hec licentiosa veniarum predicatio, ut nec reverentiam Pape facile sit etiam doctis viris redimere a calumniis aut certe argutis questionibus laicorm.
Scilicet. Cur Papa non evacuat purgatorium propter sanctissimam charitatem et summam animarum necessitatem ut causam omnium iustissimam, Si infinitas animas redimit propter pecuniam funestissimam ad structuram Basilice ut causam levissimam?
Item. Cur permanent exequie et anniversaria defunctorum et non reddit aut recipi permittit beneficia pro illis instituta, cum iam sit iniuria pro redemptis orare?
Item. Que illa nova pietas Dei et Pape, quod impio et inimico propter pecuniam concedunt animam piam et amicam dei redimere, Et tamen propter necessitatem ipsius met pie et dilecte anime non redimunt eam gratuita charitate?
Item. Cur Canones penitentiales re ipsa et non usu iam diu in semet abrogati et mortui adhuc tamen pecuniis redimuntur per concessionem indulgentiarum tanquam vivacissimi?
Item. Cur Papa, cuius opes hodie sunt opulentissimis Crassis crassiores, non de suis pecuniis magis quam pauperum fidelium struit unam tantummodo Basilicam sancti Petri?
Item. Quid remittit aut participat Papa iis, qui per contritionem perfectam ius habent plenarie remissionis et participationis?
Item. Quid adderetur ecclesie boni maioris, Si Papa, sicut semel facit, ita centies in die cuilibet fidelium has remissiones et participationes tribueret?
Ex quo Papa salutem querit animarum per venias magis quam pecunias, Cur suspendit literas et venias iam olim concessas, cum sint eque efficaces?
Hec scrupulosissima laicorum argumenta sola potestate compescere nec reddita ratione diluere, Est ecclesiam et Papam hostibus ridendos exponere et infelices christianos facere.
Si ergo venie secundum spiritum et mentem Pape predicarentur, facile illa omnia solverentur, immo non essent.
Valeant itaque omnes illi prophete, qui dicunt populo Christi “Pax pax”, et non est pax.
Bene agant omnes illi prophete, qui dicunt populo Christi “Crux crux”, et non est crux.
Exhortandi sunt Christiani, ut caput suum Christum per penas, mortes infernosque sequi studeant,
Ac sic magis per multas tribulationes intrare celum quam per securitatem pacis confidant.
A reconstrução da Basílica de São Pedro, na cidade de Roma, Itália, iniciada no ano de 1506, sob o pontificado do Papa Júlio II (Giuliano della Rovere, Papa da Igreja Católica de 1503 a 1513, falecido em 1513). Essa reconstrução representou, simultaneamente, a glória arquitetônica e a vergonha moral da Roma papal.
O monumental templo foi erguido em honra à memória do apóstolo Pedro, com recursos originados do comércio de indulgências, prática fiscal e eclesiástica que acabou por contribuir para o rompimento da unidade da cristandade ocidental.
Os papas Júlio II e seu sucessor, o Papa Leão X emitiram sucessivas bulas com o intuito de arrecadar fundos para essa obra e para o sustento da corte romana. (Papa Leão X - Giovanni de' Medici, nascido em 1475, Papa da Igreja Católica de 1513 a 1521, falecido em 1521),
No ano de 1515, ao atingir cerca de 40 anos de idade, o Papa Leão X mantinha, na cidade do Vaticano, um estilo de vida célebre pelo luxo ostentoso, pelo patronato das artes e pelas festas seculares.
Enquanto nações como Espanha, Inglaterra e França resistiram às imposições financeiras e tributárias das bulas papais por razões econômicas nacionais, a Alemanha submeteu-se à dominação e à fiscalidade de Roma em razão do governo fragilizado do Imperador Maximiliano I (Imperador do Santo Império Romano de 1493 a 1519, nascido em 1459 e falecido em 1519).
Para viabilizar a arrecadação em território germânico, o Papa Leão X dividiu a Alemanha em três distritos e, no ano de 1515, confiou a comissão de venda das indulgências em um desses distritos ao jovem Alberto de Brandemburgo (Arcebispo de Mainz e Magdeburg, Administrador de Halberstadt e Chanceler do Império, nascido em 28 de junho de 1490 e falecido em 24 de setembro de 1545).
Com apenas vinte e cinco anos de idade em 1515, Alberto ocupava o posto de maior hierarquia do clero alemão e residia em Mainz, na Alemanha. O prelado mantinha hábitos ostentosos e cortesãos, sendo rodeado por uma guarda de cento e cinquenta cavaleiros armados, além de não possuir formação teológica aprofundada.
Para obter a confirmação papal e o pálio arcebispal de Roma, acumulando ilegalmente múltiplos bispados contra o direito canônico, Alberto necessitou pagar à Cúria Romana a quantia de trinta mil florins de ouro. (Cerca de 9 milhões de dólares, hoje, 2026).
A fim de obter esse montante, o jovem arcebispo contraiu um grande empréstimo junto à famosa Casa Bancária Fugger, instituição comercial sediada na cidade de Augsburg, na Alemanha, dirigida pelo influente banqueiro Jakob Fugger.
Para viabilizar a quitação dessa dívida privada entre o bispo e o banco, o Papa Leão X firmou um contrato formal com o Arcebispo Alberto, no ano de 1515, autorizando-o a reter exatamente metade, ou seja, 50%, de todo o dinheiro arrecadado com as indulgências em sua jurisdição durante oito anos, para pagar o empréstimo bancário, enquanto a outra metade era remetida a Roma para a construção da Basílica de São Pedro.
Em decorrência desse arranjo financeiro e contratual, os agentes comerciais do banco Fugger acompanhavam fisicamente os pregadores de indulgências pelo país, detinham as chaves dos cofres e posicionavam-se ao lado dos baús de ferro para recolher a quota pertencente à casa bancária à medida que as moedas eram depositadas pelos fiéis.
O Arcebispo Alberto de Brandemburgo (Arcebispo de Mainz e Magdeburg, Administrador de Halberstadt e Chanceler do Império, 1490–1545), aos 27 anos de idade, nomeou como seu comissário principal para a venda de indulgências o monge dominicano Johann Tetzel, então com cerca de 60 anos e detentor de vasta experiência na pregação de indulgências desde 1501. (Johann Tetzel - Inquisidor papal e Doutor em Teologia, c. 1450 - 1519).
Tetzel percorria as cidades germânicas com grande solenidade, entrando em procissões compostas por sacerdotes, magistrados e populares, ao som de sinos e sob o resplendor das velas. A bula do Papa Leão X, então com 42 anos, era conduzida sobre uma almofada de veludo até o altar principal da igreja.
Ali se erguia uma cruz vermelha com o brasão papal e, aos seus pés, colocava-se um baú de ferro destinado a recolher as moedas dos fiéis. Em suas pregações diárias, Tetzel prometia a libertação das almas do purgatório, sendo-lhe atribuída, por testemunhas da época, a conhecida rima popular: "Sobald der Pfennig im Kasten klingt, Die Seel' aus dem Fegfeuer springt" ("Assim que a moeda no baú tilinta, a alma do purgatório salta").
Preocupado em evitar a evasão financeira de seus domínios, o Eleitor Frederico III, "o Sábio", da Saxônia (fundador da Universidade de Wittenberg, 1463–1525), aos 54 anos de idade, proibiu a entrada de Tetzel em seu território. Em razão dessa proibição, Tetzel estabeleceu seu comércio na cidade de Jüterbog, situada na fronteira da Saxônia, a poucas horas de caminhada de Wittenberg.
Impressionados com a promessa de perdão pleno, os paroquianos de Wittenberg atravessavam a fronteira para adquirir os documentos e, posteriormente, apresentavam-nos ao monge agostiniano Martinho Lutero (Doutor em Teologia e Professor na Universidade de Wittenberg, 1483–1546), então com 33 anos de idade, no confessionário. Os fiéis recusavam-se a abandonar seus pecados e a cumprir as penitências prescritas, alegando possuir a absolvição concedida pelas cartas papais.
Esse impasse provocou uma profunda crise na consciência de Lutero. Como pastor e teólogo, ele compreendeu que o comércio das indulgências comprometia o verdadeiro arrependimento cristão. Diante disso, concluiu que permanecer em silêncio significaria trair a teologia, seu dever pastoral e a própria consciência diante de Deus.
Antes do episódio decisivo do outono de 1517, Martinho Lutero já havia manifestado profundas preocupações teológicas.
No verão de 1516, ao pregar um sermão na Igreja da Cidade de Wittenberg, o teólogo advertiu os fiéis contra a falsa segurança espiritual proporcionada pelo comércio de indulgências.
Contudo, diante do avanço das pregações de Johann Tetzel, Lutero decidiu adotar uma atitude pública de caráter estritamente acadêmico, sem consultar previamente seus colegas de faculdade nem seus amigos pessoais.
Conforme registra a documentação histórica analisada por Philip Schaff, no memorável dia 31 de outubro de 1517, exatamente ao meio-dia, Lutero afixou, por sua própria mão ou por intermédio de um encarregado, as Noventa e Cinco Teses, redigidas em língua latina, na porta de madeira da Igreja do Castelo (Schlosskirche), na cidade de Wittenberg, Alemanha.
A escolha da data e do local atendeu a um critério prático e deliberado. A véspera do Dia de Todos os Santos, celebrado em 1º de novembro, constituía uma das datas festivas de maior afluência de público na região.
Naquela ocasião, professores, estudantes e multidões de peregrinos dirigiam-se à Igreja do Castelo para venerar a extensa coleção de relíquias sagradas mantida por Frederico III, "o Sábio", Eleitor da Saxônia (Eleitor da Saxônia de 1486 a 1525 e Fundador da Universidade de Wittenberg, nascido em 17 de janeiro de 1463 e falecido em 5 de maio de 1525, contando com 54 anos de idade em 1517, residente em Wittenberg e Torgau, Alemanha).
Na mesma data, 31 de outubro de 1517, Lutero enviou uma cópia formal do documento latino, acompanhada de uma carta oficial de protesto, a Alberto de Brandemburgo (Arcebispo de Mainz e Magdeburg, Administrador de Halberstadt e Chanceler do Império (1490-1545), com 27 anos de idade em 1517, exercendo o mandato arcebispal de 1514 a 1545, com sede em Mainz, Alemanha).
Também recebeu a correspondência de Hieronymus Scultetus (Bispo de Brandemburgo (1460 - 1522), com cerca de 57 anos de idade em 1517, exercendo o episcopado de 1507 a 1521, na cidade de Brandemburgo, Alemanha). Ambos eram autoridades eclesiásticas sob cuja jurisdição a diocese se encontrava.
No que diz respeito aos debates historiográficos sobre os detalhes do acontecimento, Philip Schaff distingue com rigor a tradição lendária dos fatos amparados por provas documentais.
Segundo Schaff, a conhecida narrativa do sonho do Eleitor Frederico, segundo a qual o príncipe saxão teria sonhado, na noite anterior, com um monge escrevendo no portal de Wittenberg com uma pena gigantesca que alcançava Roma, atravessava a cabeça de um leão e sacudia a tiara papal, constitui uma ficção poética surgida apenas no final do século XVI.
Essa narrativa não possui, segundo Schaff, qualquer registro contemporâneo escrito por Georg Spalatin (capelão, secretário do eleitor e historiador (1484 –1545), contando com 33 anos de idade em 1517, atuante em Torgau e Wittenberg).
Em contrapartida, Schaff estabelece como historicamente comprovados, pela documentação oficial preservada, a fixação pública das teses no portal da igreja ao meio-dia de 31 de outubro de 1517 e o envio, na mesma ocasião, da correspondência formal dirigida ao Arcebispo Alberto de Brandemburgo.
O objetivo primário de Martinho Lutero ao publicar o documento em 31 de outubro de 1517 era propor um debate universitário interno, em língua latina, intitulado Disputatio ad declarandam virtutem indulgentiarum ("Disputa para esclarecer a virtude das indulgências").
Lutero não tinha, inicialmente, a intenção de romper com a Igreja Católica, atacar a autoridade do Papa Leão X ou abolir o dogma das indulgências em si, mas de combater seus abusos práticos e os desvios morais que, a seu ver, haviam se instalado no meio eclesiástico.
No ano de 1545, ao redigir o prefácio do primeiro volume de suas obras completas em latim, o próprio Martinho Lutero registrou a moderação e a oscilação de sua postura inicial em 1517, ao declarar: "Permito que permaneçam, para que por elas transpareça quão fraco eu era e em que estado de mente oscilante me encontrava quando comecei este negócio. Eu era então um monge e um papista enfurecido [papista insanissimus], e tão submerso nos dogmas do Papa que estaria pronto para matar qualquer pessoa que negasse a obediência ao Papa."
O conteúdo das Noventa e Cinco Teses já articulava, contudo, princípios fundamentais que se tornariam a espinha dorsal da futura teologia evangélica.
Logo na Tese 1, Martinho Lutero estabeleceu o fundamento do arrependimento cristão ao escrever: "Nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo, ao dizer 'Arrependei-vos', desejou que toda a vida dos fiéis fosse de arrependimento."
Na Tese 2, o teólogo enfatizou que essa ordenança não dizia respeito apenas ao sacramento da penitência administrado pelos sacerdotes, envolvendo confissão e satisfação, mas também a uma conversão interior e contínua do coração (metanoia).
Na Tese 62, Martinho Lutero afirmou a centralidade da mensagem cristã ao declarar: "O verdadeiro tesouro da Igreja é o sacrossanto Evangelho da glória e da graça de Deus".
Além dos fundamentos doutrinários, o documento deu voz pública às inquietações éticas formuladas pelos leigos da época. Na Tese 82, Martinho Lutero indagou por que o Papa não esvaziava o purgatório movido pela santíssima caridade, em vez de fazê-lo por dinheiro vil.
Na Tese 86, formulou uma pergunta ainda mais incisiva: "Por que o Papa, cuja riqueza é hoje mais abundante do que a dos mais opulentos ricos, não constrói a Basílica de São Pedro com seu próprio dinheiro, em vez de fazê-lo com o dinheiro dos fiéis pobres?"
Como os professores e estudantes da Universidade de Wittenberg concordavam integralmente com as posições de Martinho Lutero, a disputa acadêmica presencial não chegou a realizar-se na universidade.
Desta forma, sem o consentimento prévio do autor, o texto latino das Noventa e Cinco Teses foi traduzido para o alemão por Justus Jonas (nascido Jodokus Koch, Teólogo, Jurista, Professor de Teologia na Universidade de Wittenberg e Reformador, 1493 - 1552, atuante nas cidades de Erfurt e Wittenberg, na Alemanha, com formação acadêmica de Doutor em Direito e Teologia e contando com cerca de 24 anos de idade no outono de 1517).
Impressas em folhetos pelas prensas tipográficas, as teses espalharam-se rapidamente entre a população. Em duas semanas, o documento havia alcançado todos os cantos da Alemanha e, em quatro semanas, circulava por grande parte da Europa ocidental.
Philip Schaff compara o impacto desse acontecimento histórico ao golpe de machado com o qual São Bonifácio, quando derrubou o carvalho sagrado de Thor em Geismar, teria contribuído para a queda do paganismo germânico. (São Bonifácio foi bispo, missionário Anglo-Saxão e apóstolo dos germânicos, 675–754 d.C., Frísia, atuante nas cidades de Mainz e Fulda, na Alemanha, e contando com aproximadamente 48 anos de idade no ano de 723 d.C., quando derrubou o carvalho sagrado de Thor em Geismar, teria contribuído para a queda do paganismo germânico.)
A acolhida do documento entre os intelectuais e teólogos contemporâneos foi imediata.
Ao tomar conhecimento do texto, o teólogo Dr. Albert Fleck exclamou com entusiasmo: "Aha! O homem chegou que fará a coisa!" (Albert Fleck, monge franciscano e pregador, atuante na cidade de Leipzig e na região de Lausitz, na Alemanha, com doutorado em teologia e contando com cerca de 47 anos de idade em 1517)
Por sua vez, o destacado humanista Johannes Reuchlin deu graças a Deus, declarando: "Os monges agora encontraram um homem que lhes dará tanto trabalho que eles ficarão felizes em me deixar passar minha velhice em paz." (Jurista, Humanista, Hebraísta e Professor de Línguas Clássicas, 1455-1522, com grau acadêmico de Doutor em Leis e Mestre em Artes e contando com 62 anos de idade em 1517).
Johannes Reuchlin era um grande mestre humanista e hebraísta. Antes de Lutero, Reuchlin enfrentou uma perseguição feroz por parte dos monges dominicanos e de teólogos escolásticos, liderados por Pfefferkorn e Hochstraten, de Colônia, porque defendia a preservação dos livros judaicos escritos em hebraico, incluindo o Antigo Testamento em sua língua original.
Os monges queriam queimar esses livros e acusavam Johannes Reuchlin de heresia. Esse conflito, conhecido como “Controvérsia de Reuchlin”, desgastou-o e o manteve sob intensa perseguição durante anos, inclusive em sua velhice.
Johannes Reuchlin percebeu que Lutero, que também havia começado a questionar a teologia dos monges e dos escolásticos, provavelmente atrairia para si toda a atenção, a oposição e a energia de seus adversários.
Assim, os monges estariam ocupados demais combatendo Lutero e deixariam Johannes Reuchlin em paz, permitindo-lhe viver seus últimos anos com menor pressão e perseguição.
As 95 teses foram escritas em latim, a língua culta utilizada por professores e acadêmicos. Na época, afixar teses no portal da igreja era uma forma de um professor universitário convidar outros doutores para uma discussão teológica, conhecida como Disputatio.
Lutero não tinha a intenção inicial de criar uma nova religião ou romper com o Papa. Seu propósito era promover um debate acerca dos abusos relacionados ao comércio das indulgências.
Sem a autorização de Lutero, o texto foi traduzido do latim para o alemão, a língua do povo, e posteriormente impresso por meio da imprensa de tipos móveis, que havia revolucionado a produção e a circulação de textos.
As teses encontraram eco em sentimentos de insatisfação e revolta que já estavam presentes em parte da população diante das práticas financeiras associadas a Roma. Em duas semanas, o texto havia se espalhado pela Alemanha; em quatro semanas, havia alcançado grande parte da Europa.
Quando Roma exigiu a retratação de Lutero e passou a atacá-lo, o debate, que inicialmente se concentrava nos abusos relacionados às indulgências, tomou proporções muito maiores. A controvérsia levou Lutero a questionar progressivamente a autoridade dos papas e dos concílios, contribuindo para o surgimento do movimento histórico que posteriormente ficou conhecido como Reforma Protestante.
O objetivo primário de Martinho Lutero ao publicar as teses era propor um debate universitário interno, em língua latina, intitulado “Disputatio ad declarandam virtutem indulgentiarum” (“Disputa para esclarecer a virtude das indulgências”). Lutero não tinha a intenção de romper com a Igreja Católica, de atacar a figura do Papa ou de abolir o dogma das indulgências, mas de combater seus excessos e desvios morais.
Em 1545, ao redigir o prefácio de suas obras completas, o próprio Lutero registrou a moderação de sua postura inicial, declarando: “Permito que permaneçam, para que por elas transpareça quão fraco eu era, e em que estado de mente oscilante me encontrava quando comecei este negócio. Eu era então um monge e um papista enfurecido [papista insanissimus], e tão submerso nos dogmas do Papa que estaria pronto para matar qualquer pessoa que negasse a obediência ao Papa”.
O conteúdo das teses já articulava, contudo, princípios que se tornariam essenciais à futura teologia evangélica. Logo na Tese 1, Lutero estabeleceu o fundamento do arrependimento cristão ao escrever: “Nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo, ao dizer ‘Arrependei-vos’, desejou que toda a vida dos fiéis fosse de arrependimento”. Na Tese 2, enfatizou que essa afirmação não dizia respeito apenas ao sacramento da penitência administrado pelos sacerdotes, mas a uma conversão interior e contínua do coração (metanoia). Na Tese 62, Lutero afirmou a centralidade da mensagem cristã: “O verdadeiro tesouro da Igreja é o sacrossanto Evangelho da glória e da graça de Deus”.
Além dos pontos doutrinários, o documento também expressou os questionamentos éticos levantados pelos leigos de seu tempo. Na Tese 82, Lutero indagou por que o Papa não esvaziava o purgatório movido pela santíssima caridade, em vez de fazê-lo por dinheiro. Na Tese 86, formulou o seguinte questionamento: “Por que o Papa, cuja riqueza é hoje mais abundante do que a dos mais opulentos ricos, não constrói a Basílica de São Pedro com seu próprio dinheiro, em vez de fazê-lo com o dinheiro dos fiéis pobres?”
Como os professores e estudantes de Wittenberg concordavam com as posições de Lutero, a disputa acadêmica presencial não chegou a ser realizada na universidade. Não obstante, sem o conhecimento prévio do autor, as Noventa e Cinco Teses foram traduzidas do latim para o alemão por figuras como Justus Jonas, impressas em folhetos e rapidamente distribuídas. Em duas semanas, o texto havia se espalhado por toda a Alemanha e, em quatro semanas, alcançado grande parte da Europa ocidental. Philip Schaff compara o impacto desse ato ao golpe de machado com o qual São Bonifácio, setecentos anos antes, derrubou o carvalho sagrado de Thor, símbolo da queda do paganismo germânico.
A recepção do documento entre os intelectuais da época foi imediata. Ao ler as teses, o teólogo Dr. Fleck exclamou com entusiasmo: “Aha! O homem chegou que fará a coisa!” Por sua vez, o destacado humanista Johannes Reuchlin deu graças a Deus, declarando que “os monges agora encontraram um homem que lhes dará tanto trabalho que eles ficarão felizes em me deixar passar minha velhice em paz”.
O escrito, que nasceu como um convite ao debate acadêmico, transformou-se, em pouco tempo, no marco inaugural do movimento da Reforma Protestante do século XVI.
BIBLIOGRAFIA
SCHAFF, Philip. History of the Christian Church: Volume VI. Modern Christianity – The German Reformation. 2. ed. Rev. New York: Charles Scribner's Sons, 1904.
Clique no primeiro botão logo abaixo, escrito >> Philip Schaff. History Christian Church. | BAIXAR PDF << e baixe o livro completo que é a bibliografia do artigo acima. (Idioma inglês)
Convido você a se aprofundar nas páginas desta obra fundamental de Philip Schaff. Explore a trajetória das Noventa e Cinco Teses, os embates de consciência de Martinho Lutero e a complexa engenharia financeira que moldou o mundo moderno.
Clique no primeiro botão logo abaixo, escrito >> Philip Schaff. History Christian Church. | IA | INTERATIVA << e interaja com a obra completa que é a bibliografia do artigo acima.
A história da teologia ocidental passou por uma profunda transformação no início do século XVI, quando as inquietações pastorais de um monge e professor universitário conduziram à redescoberta do núcleo da mensagem cristã.
No primeiro volume de suas obras completas, especialmente nas Resoluções sobre a Virtude das Indulgências, escritas em 1518, Martinho Lutero, monge agostiniano, teólogo e professor universitário em Wittenberg, expôs em detalhes sua convicção central: "a salvação do ser humano ocorre exclusivamente pela graça divina e mediante a fé em Jesus Cristo, sem qualquer dependência dos méritos ou das obras humanas."
Essa compreensão, conhecida fundamentalmente pelos princípios teológicos em latim Sola Fide (Somente a Fé) e Sola Gratia (Somente a Graça), não nasceu de uma formulação acadêmica meramente intelectual, mas brotou de uma intensa luta espiritual vivida no coração do próprio reformador.
Antes de tornar pública a sua posição teológica na cidade de Wittenberg, na Alemanha, Martinho Lutero enfrentou profundos conflitos interiores e momentos de intensa angústia no claustro agostiniano. Ele viveu momentos de profunda agonia e desespero espiritual, atormentado por uma severa crise de consciência (Anfechtung) diante da santidade e do juízo de Deus.
Na tentativa de encontrar a paz da consciência e alcançar a certeza do perdão dos pecados, o teólogo entregava-se intensamente a jejuns, orações rigorosas e confissões frequentes. Ainda assim, percebia que a lei e os esforços humanos não eram capazes de purificar o coração culpado.
Em suas reflexões, o reformador de Wittenberg confessou que chegou a desesperar de Deus e de tudo o que d’Ele procedia, pois sentia a sua consciência esmagada pelo terror da lei e pela incapacidade de cumprir com perfeição as exigências divinas.
Ele compreendeu que tentar edificar a paz da alma e a esperança da salvação sobre o fundamento dos próprios méritos, das satisfações penitenciais ou da intensidade da contrição individual era exatamente o mesmo que construir uma casa sobre a areia, destinada à ruína inevitável e eterna. Diante do tribunal de Deus, nenhuma sabedoria natural, esforço moral ou preparação humana pode tornar a pessoa digna ou justa por si mesma de ter a vida eterna, pois ela é um dom de Deus,
A virada espiritual e conceitual na vida do teólogo alemão ocorreu à medida que ele se aprofundou no estudo das Sagradas Escrituras na Universidade de Wittenberg, especialmente na Epístola aos Romanos, escrita pelo Apóstolo Paulo.
A passagem bíblica que mais marcou o pensamento e a consciência de Martinho Lutero foi Romanos 1:17, onde está escrito que “o justo viverá da fé” (iustus ex fide vivit). Ao analisar essa declaração bíblica, ele compreendeu que a “justiça de Deus” não se referia ao castigo punitivo com o qual Deus pune os pecadores, mas à justiça imerecida que Deus concede gratuitamente ao crente por meio da fé.
Outras passagens das Sagradas Escrituras foram determinantes para fundamentar a crença irrestrita de Martinho Lutero no Sola Fide e no Sola Gratia. Os textos de Romanos 3:20 e 3:28 convenceram o teólogo de que nenhuma carne será justificada diante de Deus pelas obras da lei, visto que a função primária da lei não é salvar, mas revelar a gravidade do pecado e humilhar o homem, para que ele busque o remédio na graça.
O Apóstolo Paulo reafirma essa verdade na Epístola a Tito 3:5, declarando que Deus nos salvou não por obras de justiça que tivéssemos feito, mas segundo a Sua infinita misericórdia.
Do mesmo modo, o Salmo 143:2 tornou-se uma oração constante de Lutero, lembrando que "nenhum vivente será considerado justo na presença de Deus se for julgado segundo os seus próprios atos".
Ao mesmo tempo, as palavras de Jesus Cristo em Mateus 11:28, convidando todos os cansados e oprimidos a irem até Ele para encontrar alívio, e o testemunho do Evangelho de João 1:29, apresentando Cristo como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, consolaram a consciência perturbada de Lutero e estabeleceram o alicerce inabalável de sua fé.
Nas Resoluções sobre a Virtude das Indulgências, elaboradas em maio de 1518, em Wittenberg, na Alemanha, Martinho Lutero deixou claro aquilo em que acreditava e o que defendia perante a Igreja de sua época.
O professor de Wittenberg sustentava categoricamente que a salvação do homem é uma obra realizada exclusivamente pela pura e soberana graça de Deus, sem a adição de qualquer mérito, seja ele anterior ou posterior.
A fé em Cristo não era concebida por Lutero como um ato de virtude moral produzido pelo intelecto humano, mas como uma dádiva e uma obra espiritual que justifica, purifica e dignifica o coração do crente.
Um dos conceitos mais belos e profundos desenvolvidos por Lutero é a doutrina da união do crente com Cristo por meio da fé, muitas vezes chamada pelo reformador de “doce permuta”.
Martinho Lutero afirmava que, pela fé, ocorre uma troca espiritual indissolúvel: os pecados do crente deixam de lhe pertencer e são lançados sobre Cristo, que os levou sobre Si na cruz do Calvário.
Simultaneamente, toda a justiça, a santidade, a virtude, a vitória e os méritos infinitos de Cristo passam a pertencer ao crente por meio da fé. Assim, o indivíduo justificado torna-se livre de toda condenação, porque o seu bem e a sua salvação não estão localizados dentro dele mesmo, mas fora dele, na misericórdia de Deus em Cristo.
Nesse sentido, a crença de Martinho Lutero ensina que a pessoa cristã vive em uma condição dupla: é simultaneamente pecadora em sua própria natureza (in se ipso), mas inteiramente justa perante Deus por meio da imputação da justiça de Cristo (in Christo). Deus tolera, perdoa e cobre as imperfeições e as falhas diárias do crente sob a sombra das asas de Cristo, acolhendo o pecador não porque ele seja perfeito em si mesmo, mas porque o Filho de Deus atua como seu propiciatório e defensor perante o Pai.
Para tornar ainda mais clara a distinção entre a Lei e a Graça, Martinho Lutero formulou uma frase marcante durante a Disputa de Heidelberg, realizada em Heidelberg, na Alemanha, em 26 de abril de 1518. Naquela ocasião, declarou: “A Lei diz: ‘faz isto’, mas a ordem nunca é cumprida; a Graça, porém, diz: ‘crê neste’, e tudo já está cumprido.”
Em relação às boas obras, Lutero ensinava que elas não são a causa da salvação, mas seu fruto natural e inevitável. Primeiro, a pessoa precisa ser aceita e justificada por Deus mediante a fé; então, como fruto dessa fé, passa a produzir obras agradáveis aos olhos divinos.
A defesa dessa doutrina não foi uma tarefa simples nem tranquila para o teólogo de Wittenberg. Desde a publicação das 95 Teses, em 31 de outubro de 1517, na cidade de Wittenberg, na Alemanha, Martinho Lutero enfrentou forte oposição de teólogos renomados de sua época. Ao enviar o texto das Resoluções ao Papa Leão X, em 30 de maio de 1518, o reformador sabia que estava se opondo à estrutura mercantilista estabelecida em torno das indulgências e promovida por pregadores como Johann Tetzel.
Em escritos polêmicos do mesmo período, incluindo aqueles dirigidos contra Johann Eck e Silvester Prierias, Lutero reafirmou, sem recuar, que a verdadeira paz da consciência jamais poderia ser comprada por cartas de indulgência nem alcançada por meio de rituais externos.
Ele sustentava com firmeza que a única consolação dos pecadores se encontra no perdão gratuito da culpa, concedido pela graça de Deus e recebido pela fé no Evangelho. O autor alertou que sacerdotes e pregadores que prometiam segurança de salvação por meio de certificados, em vez de ensinarem a fé na Palavra de Cristo, enganavam as almas e conduziam os fiéis à destruição espiritual.
A doutrina da justificação pela fé e pela graça, desenvolvida por Martinho Lutero em 1518 e registrada no Volume 1 da Weimarer Ausgabe, tornou-se a espinha dorsal do pensamento protestante e marcou profundamente o curso da história ocidental. Ao retirar a salvação do terreno da compra e venda e das exigências meritórias do esforço humano, o teólogo alemão devolveu aos fiéis a esperança libertadora fundada na misericórdia incondicional de Deus.
O ensino de Lutero permanece como um marco de acolhimento pastoral para as consciências aflitas, lembrando que o ser humano não precisa acumular riquezas espirituais para comprar o céu, mas tão somente estender as mãos vazias da fé para receber o dom gratuito da vida eterna.
BIBLIOGRAFIA
LUTHER, Martin. D. Martin Luthers Werke: Kritische Gesamtausgabe. Herausgegeben von J. K. Knaake. Weimar: Hermann Böhlau, 1883. v. 1. 718 p.
Clique no primeiro botão logo abaixo, escrito >> MARTIN LUTHER | BILIOGRAFIA | 1883 | BAIXAR PDF << e baixe o livro completo que é a bibliografia do artigo acima. (idioma latim, alemão do século XVI e alemão moderno do século XIX)
Clique no primeiro botão logo abaixo, escrito >> MARTIN LUTHER BIBLIOGRAFIA | INTERATIVA | IA << e acesse o Gemini Notebook para interagir com a bibliografia que é a fonte do artigo acima.
No dia 26 de abril de 1518, na cidade de Heidelberg, na Alemanha, a Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho realizou seu capítulo geral ordinário.
O encontro foi convocado por Johann von Staupitz, vigário-geral da Ordem dos Agostinianos e teólogo, de Tuebinga (1460–1524), que desejava proporcionar um ambiente em que as novas ideias acadêmicas que despontavam na Saxônia pudessem ser debatidas de maneira fraternal e acadêmica.
A posição geográfica e a soberania jurídica da Saxônia Eleitoral garantiram que os conflitos teológicos iniciados em Wittenberg não fossem sufocados de imediato pelas autoridades externas.
O fato de a Saxônia ser um território eleitoral autônomo permitiu ao príncipe Frederico III recusar a entrega de Martinho Lutero aos tribunais fora das fronteiras germânicas, exigindo que o professor fosse ouvido em solo alemão, como ocorreu no encontro de Augsburgo em 1518.
Para presidir a sessão teológica, foi convidado Martinho Lutero, enquanto a defesa pública das teses ficou a cargo de Leonhard Beier, monge agostiniano e mestre em Artes e Filosofia (1495–1565), também de Wittenberg.
Esse evento, que entrou para a história como a Disputa de Heidelberg, ocorreu poucos meses após a publicação das 95 Teses, em 31 de outubro de 1517, na cidade de Wittenberg, na Alemanha.
Se, no escrito de 1517, o foco principal de Martinho Lutero estava voltado à denúncia dos abusos financeiros e pastorais relacionados ao comércio de indulgências, o debate de 1518, em Heidelberg, permitiu-lhe expor com maior clareza o núcleo filosófico e espiritual de sua reflexão.
Naquele encontro, o teólogo de Wittenberg apresentou uma distinção fundamental entre dois modos opostos de compreender Deus e a religião, definidos por ele como a Teologia da Glória e a Teologia da Cruz.
Mais do que uma discussão acadêmica, a Disputa de Heidelberg tornou-se, assim, um momento decisivo para a exposição das inquietações teológicas que começavam a tomar forma no pensamento de Lutero.
Martinho Lutero explicou que a tendência natural da humanidade é buscar o conhecimento de Deus por meio da especulação racional, da contemplação da grandeza do universo e do acúmulo de méritos morais.
A essa atitude espiritual, Lutero deu o nome de Teologia da Glória (Theologia Gloriae). Em sua visão, o teólogo da glória é aquele que pretende elevar-se até o Criador pelas escadas da sabedoria humana, das boas obras e do poder terreno, esperando encontrar um Deus grandioso que recompense os esforços do indivíduo.
Martinho Lutero combateu energicamente essa abordagem, argumentando que a tentativa de alcançar Deus por meio das próprias capacidades intelectuais e morais conduz a uma profunda ilusão religiosa.
Lutero criticou a dependência excessiva dos teólogos de sua época em relação aos conceitos de Aristóteles, filósofo grego da Antiguidade (384 a.C.–322 a.C.), de Estagira, cuja ética ensinava que uma pessoa se torna justa à medida que pratica atos justos.
Na avaliação do reformador de Wittenberg, quando esse raciocínio filosófico é aplicado ao campo da fé, leva o ser humano a confiar nas próprias forças e a buscar a autoglorificação, esquecendo-se de que a verdadeira justiça não é produzida pelo homem, mas recebida gratuitamente de Deus.
Na Tese 19 e na Tese 22 do documento, Martinho Lutero argumentou que enxergar a majestade divina apenas por meio das realizações humanas produz orgulho (inflat), cegueira espiritual (excaecat) e endurecimento do coração (indurat). Em sua visão, quem raciocina dessa maneira passa a confiar na própria justiça e faz de suas boas obras um pedestal para a própria vaidade pessoal.
Por essa razão, na Tese 21, o professor de Wittenberg declarou que o teólogo da glória chama o mal de bem e o bem de mal, ao passo que o teólogo da cruz chama as coisas pelo nome que elas realmente têm.
O teólogo da glória considera boas as obras humanas e o orgulho religioso, enquanto rejeita o sofrimento, a fraqueza e a humilhação.
Contudo, Lutero acredita que nenhuma realização do homem pode permanecer de pé diante do tribunal da santidade divina. Pois a lei de Deus exige uma perfeição absoluta que a natureza humana é incapaz de oferecer. A lei atua como um espelho que revela o pecado, desfaz a presunção humana e evidencia a necessidade de um Salvador.
Em contraste com a busca humana por grandeza, Martinho Lutero apresentou, na Tese 20, a essência da Teologia da Cruz (Theologia Crucis), afirmando que o verdadeiro teólogo é aquele que compreende as coisas visíveis e posteriores de Deus, contempladas por meio dos sofrimentos e da cruz.
Lutero sustentou que Deus decidiu não se deixar encontrar no esplendor de uma majestade acessível ao orgulho da razão humana, mas preferiu ocultar-se na humilhação, na fraqueza, na dor e no escândalo da cruz de Jesus Cristo.
Para fundamentar essa convicção, o reformador de Wittenberg recorreu às palavras do profeta Isaías, que declarou que Deus é um Deus oculto, bem como aos ensinamentos do Apóstolo Paulo na Primeira Epístola aos Coríntios, onde se afirma que aprouve a Deus salvar os que creem por meio da loucura da pregação.
Martinho Lutero enfatizou que a verdadeira teologia e o conhecimento autêntico de Deus se encontram exclusivamente em Cristo crucificado. Na cruz, a sabedoria do mundo é desmascarada, pois é ali que Deus revela Seu amor infinito de uma maneira que humilha a vaidade humana e conduz o homem à entrega confiante da fé.
O ponto culminante da Teologia da Cruz desenvolvida por Martinho Lutero reside na centralidade absoluta do sacrifício de Jesus Cristo na cruz, apresentado como o único fundamento da salvação e o único meio de reconciliação entre Deus e os homens.
Em diversos sermões e escritos de Lutero, ele explica que, na cruz de Cristo, ocorreu o mistério da redenção: "o Filho de Deus tomou sobre Si a condição, as dores e a culpa dos pecadores, para conceder, em troca, Sua perfeita justiça e a vida eterna a todos os que n'Ele creem."
Na Tese 25 e na Tese 26 da Disputa de Heidelberg, o teólogo de Wittenberg resumiu esse ensino ao declarar que não é justo aquele que faz muitas obras, mas aquele que, sem obras, crê muito em Cristo. Ele acrescentou que a Lei diz: “faz isto”, mas nada é plenamente cumprido, ao passo que a Graça diz: “crê neste”, e todas as coisas já estão cumpridas.
A fé, portanto, não é uma obra realizada pelo homem para que ele mereça a salvação, mas o abraço da alma que recebe, pela graça, o benefício do sacrifício realizado por Cristo na cruz.
A formulação da Teologia da Cruz, em 26 de abril de 1518, na cidade de Heidelberg, na Alemanha, marcou um momento decisivo na consolidação do pensamento de Martinho Lutero nos primeiros anos da Reforma Protestante.
Ao combater a busca pela glória humana fundada nos méritos e na sabedoria própria, Lutero libertou a consciência cristã do fardo da autojustificação e redirecionou o olhar do crente para a obra consumada de Jesus Cristo no Calvário.
Esse ensino demonstrou que a salvação, a saber, a vida eterna, não é fruto do esforço humano nem uma conquista alcançada por méritos próprios, mas um dom gracioso concedido por Deus mediante o sacrifício de Seu Filho.
Ao retirar das mãos do homem todo motivo de orgulho e depositar toda a esperança na misericórdia revelada na cruz, Lutero enxerga a mensagem cristã como uma mensagem de graça, paz e esperança, preservando sua força e seu valor permanente para a história da fé.
BIBLIOGRAFIA
LUTHER, Martin. D. Martin Luthers Werke: Kritische Gesamtausgabe. Herausgegeben von J. K. Knaake. Weimar: Hermann Böhlau, 1883. v. 1. 718 p.
O pastor principal da igreja da cidade (Stadtkirche), o teólogo Johannes Bugenhagen (1485–1558), doutor em teologia pela Universidade de Wittenberg, com aproximadamente 52 anos naquele período, havia deixado a Saxônia após ser convocado pelo rei Cristiano III para organizar a igreja no Reino da Dinamarca.
Com o púlpito temporariamente vago, Martinho Lutero, então com cerca de 54 anos, assumiu interinamente as pregações dominicais e semanais. Doutor em teologia e professor da universidade local, o próprio reformador passou a ocupar o púlpito em um momento de crescente tensão entre a autoridade civil e o ministério da Igreja.
Enquanto pregava na igreja da cidade e na igreja do castelo (Schlosskirche), Lutero percebeu o surgimento de um grave perigo institucional. Juristas, nobres e governantes civis da Saxônia passaram a emitir decretos administrativos (Mandate), procurando determinar como os pastores deveriam ministrar os sacramentos e conduzir os sermões.
Diante dessa interferência do poder estatal sobre a esfera da fé, o reformador ergueu a voz no púlpito e defendeu com vigor a distinção entre as duas esferas de autoridade, dando expressão à Teologia dos Dois Reinos (Zwei-Reiche-Lehre) e estabelecendo uma fronteira clara entre o poder secular e o ministério espiritual.
Para compreender o drama histórico ocorrido em Wittenberg em 1538, é fundamental identificar os atores centrais envolvidos nas disputas doutrinárias e políticas.
O protagonista do debate, Martinho Lutero, ocupava então uma posição central no cenário teológico da Saxônia, dedicando sua maturidade pastoral ao ensino e à defesa da autonomia do Evangelho.
Ao seu lado, segundo os registros históricos, encontrava-se o teólogo Georg Rörer (1492–1557), que registrava em tempo real, no papel, as palavras proferidas pelo reformador do alto do púlpito. (Georg Rörer, formado pela Universidade de Leipzig, que exercia a função de copista e taquígrafo dos sermões.)
No campo da autoridade secular, o poder político sobre o território saxão era exercido pelo Eleitor João Frederico I da Saxônia (1503–1554), conhecido como o Magnânimo, governante da dinastia Wettin de 1532 a 1547 e, aos 35 anos, uma das principais figuras políticas da Saxônia em 1538. Embora o príncipe fosse um protetor convicto da causa protestante, seus conselheiros civis e juristas da corte buscavam ampliar as prerrogativas do Estado sobre o governo interno das paróquias.
O título de "Eleitor" (em alemão, Kurfürst; em latim, Elector) não era um cargo comum, mas sim o título constitucional mais elevado e prestigioso que um príncipe secular ou eclesiástico poderia ostentar dentro do Império Romano-Germânico.
Do outro lado do espectro histórico, Lutero evocava frequentemente a memória do Papa Bonifácio VIII (1235–1303), que governou a Igreja Católica Romana entre 1294 e 1303, a partir da Sé Romana.
Em 1302, o Papa Bonifácio VIII havia promulgado a célebre bula Unam Sanctam, na qual reivindicou para o papado a posse das duas espadas, a espiritual e a temporal, submetendo reis e imperadores ao julgamento direto da Sé Romana.
Aos olhos de Lutero, a tentativa dos príncipes protestantes de controlar a igreja em 1538 reproduzia, em sentido inverso, o mesmo erro que ele atribuía ao papado: a confusão entre as autoridades espirituais e temporais. Os governantes seculares corriam, assim, o risco de se tornarem novos papas territoriais.
O conflito atingiu seu ponto mais tenso quando os juristas e governantes civis da Saxônia começaram a repreender os pastores e a estabelecer limites para a pregação pública. Juristas e nobres acusavam os pregadores de provocar desordem social ao denunciarem abertamente, do púlpito, os vícios dos governantes e a ganância dos comerciantes.
A acusação dos magistrados civis ecoava nos gabinetes governamentais nos seguintes termos: “Vocês, pregadores, devem ensinar apenas o que agrada ao príncipe e ao juiz civil; o magistrado possui o poder supremo sobre o território, e a igreja deve obedecer às suas ordens administrativas.”
Consciente da gravidade dessa intrusão, Martinho Lutero subiu ao púlpito de Wittenberg na tarde de Quinta-feira Santa, em 18 de abril de 1538, e voltou a tratar do assunto em suas exposições sobre o Evangelho de São João, oferecendo uma resposta contundente à interferência da autoridade civil.
O teólogo explicou que Deus instituiu dois governos distintos na terra, concedendo a cada um deles instrumentos próprios e inteiramente diferentes.
Ao governo civil (weltlich Regiment), exercido por imperadores, príncipes, reis e magistrados, Deus entregou a espada de ferro (eifern Schwert) e a vara de madeira (hölzerne Rute). A função desse governo temporal consiste em manter a ordem externa, proteger a vida, punir os criminosos, administrar as leis civis e garantir a paz física na sociedade. O governante civil exerce legitimamente sua autoridade sobre os corpos e os bens materiais, mas não possui jurisdição sobre a alma nem sobre a consciência humana.
Ao governo espiritual (geistlich Regiment), exercido pelos pastores e pregadores da igreja, Deus entregou única e exclusivamente a espada da boca (Mundschwert) e a vara da Palavra de Deus (Mundrute).
O ministério da igreja atua estritamente pela proclamação do Evangelho e pela repreensão dos pecados, sem recorrer à força física, às prisões ou à coerção estatal.
Em suas pregações em Wittenberg, em 1538, Lutero denunciou abertamente duas formas de usurpação que, em sua compreensão, ameaçavam a ordem cristã.
Primeiro, condenou o papado medieval por ter empunhado a espada civil:
“Os doutores do direito canônico escrevem que o papa possui ambas as espadas, a eclesiástica e a civil. O imperador e os príncipes não deveriam desembainhar a espada a não ser pela permissão do papa. No entanto, nós temos esta espada proveniente da Palavra de Deus, para ligar e desligar pela Palavra de Deus, não para fazer o que queremos segundo o nosso próprio arbítrio.”
Em segundo lugar, voltou sua crítica contra os príncipes protestantes e os juristas que pretendiam governar a igreja por meio de decretos seculares:
“Aos pregadores foi entregue a vara e a espada da boca, enquanto à autoridade secular pertence a espada de ferro e a vara de madeira, com as quais o corpo é punido. A vara da autoridade secular não diz respeito a nós, pregadores da Palavra de Deus. Mas agora as autoridades seculares, os príncipes, os reis e a nobreza no campo, assim como os juízes nas aldeias, querem conduzir a espada da boca e ensinar aos párocos o que e como eles devem pregar e governar as igrejas.”
Lutero alertou a congregação de Wittenberg para a imperiosa necessidade de manter esses dois reinos estritamente separados:
“Se o príncipe diz: ‘Escuta, pregador, ensina-me assim e assim, e não repreendas este pecado’, então as coisas se misturaram. Do mesmo modo, se o pregador diz: ‘Escuta, juiz, tu deves julgar como eu quero’, isso também é incorreto. Tu, autoridade civil, tens as tuas leis, o teu direito, os teus costumes e o teu modo de julgar; portanto, não deves julgar segundo a minha cabeça ou segundo a minha vontade, mas segundo as tuas leis civis.”
A firmeza de Martinho Lutero em suas pregações de 1538 evitou que a Reforma Protestante na Saxônia fosse absorvida como um mero instrumento do absolutismo principesco.
Ao rejeitar a interferência dos juristas no púlpito, Lutero preservou a independência pastoral e a liberdade de pregação da igreja de Wittenberg. A clara distinção entre os dois reinos impediu que a fé evangélica se transformasse em uma religião de Estado, imposta pela força da espada.
Os registros taquigrafados por Georg Rörer e Johann Stolz durante aquele ano de 1538 foram cuidadosamente preservados em manuscritos e posteriormente reunidos pelo compilador Johann Aurifaber (1519–1575), o que contribuiu para que a doutrina dos dois reinos fosse transmitida às gerações futuras.
A pregação de Lutero demonstrou que a consciência do cristão está sujeita unicamente a Deus e à Sua Palavra, enquanto a obediência devida às leis do Estado se restringe às matérias temporais e civis.
A formulação da Teologia dos Dois Reinos produziu profundo impacto na história política e teológica do Ocidente. Ao delimitar claramente os campos de atuação da igreja e do Estado, Martinho Lutero lançou alicerces históricos para o surgimento do conceito moderno de laicidade, para a separação das esferas pública e religiosa e para a defesa da liberdade de consciência.
O legado do debate ocorrido em Wittenberg em 1538 revela que a verdadeira paz social não é alcançada pela confusão entre o poder temporal e a fé, nem pela imposição estatal de dogmas religiosos, mas pelo respeito às vocações próprias de cada instituição.
O Estado cumpre seu papel divino ao garantir a justiça, a ordem e o bem-estar civil por meio de leis equitativas, enquanto a Igreja cumpre sua missão divina ao proclamar a Palavra de Deus e consolar as consciências humanas, não pela força das armas, mas pela persuasão do Evangelho.
BIBLIOGRAFIA
LUTHER, Martin. D. Martin Luthers Werke: Kritische Gesamtausgabe. Band 46. Bearbeitet von Georg Buchwald, Oscar Brenner und Johannes Luther; Herausgegeben von Karl Drescher. Weimar: Hermann Böhlaus Nachfolger, 1912.
Clique no primeiro botão logo abaixo, escrito >> MARTIN LUTHER | 1912 | BIBLIOGRAFIA | BAIXAR PDF << e baixe o livro completo que é a bibliografia do artigo acima. (Idioma: alemão e latim)
Clique no primeiro botão logo abaixo, escrito >> MARTIN LUTHER | 1912 | INTERATIVO | IA << e interaja com o livro completo que é a bibliografia do artigo acima por meio do Gemini Notebook. (idioma latim, alemão do século XVI e alemão moderno do século XIX)