Deus nos criou e colocou sobre nós imperativos de uma vida com propósitos.
C.S Lewis
Muitos passam a vida inteira procurando compreender por que nasceram e qual é o propósito de sua existência. Procuram essa resposta em muitos caminhos, mas nem sempre percebem que o Criador já deixou sinais gravados na natureza de cada ser humano. Quem aprende a observar a própria natureza, começa pouco a pouco, a discernir o caminho para o qual foi criado, chamado e vocacionado.
Nada do que o Criador faz é sem propósito. Assim como cada árvore produz segundo a sua natureza, também cada pessoa recebeu dons, inclinações e capacidades que revelam a boa obra para a qual foi criada. Há desejos que procedem apenas da vaidade humana, mas há outros que nascem de um lugar muito mais profundo. Eles revelam aquilo que o Criador escreveu no íntimo do nosso coração.
Existem sinais que acompanham esse caminho. Há situações que despertam uma santa indignação diante do mal. Há realidades que enchem o coração de alegria, gratidão e contemplação. Há obras pelas quais nos entregamos espontaneamente, sem calcular o preço do tempo, do esforço ou do sacrifício. Esses sinais não surgem por acaso. Eles apontam para a direção em que nossos dons podem produzir os melhores frutos.
Os três alicerces apresentados neste texto ajudarão você a reconhecer esses sinais. O primeiro é a ira que se desperta contra algo que precisa ser transformado; o segundo é a paixão que revela aquilo que faz o coração bater mais forte; e o terceiro é o sacrifício natural, que torna leve aquilo que seria pesado para muitos.
Esses três alicerces permanecem de pé quando estão firmados sobre um fundamento maior. Todo chamado, missão e vocação encontram seu verdadeiro sentido quando conduzem o ser humano ao amor, que é o fundamento ontológico da existência, o núcleo existencial da vida, a rocha inabalável.
Primeiro alicerce | Ira
Nem tudo no mundo será capaz de despertar em você a sua ira. Observe a si mesmo. Observe quais situações são capazes de despertar a sua ira.
Quando você estiver vivendo algum momento, ouvindo algum assunto, testemunhando alguma injustiça ou vivenciando uma profunda insatisfação, e sua ira for despertada, não tenha dúvidas. A sua ira está indicando o caminho para a sua missão de vida.
Permita-se sentir ira. Ire-se intensamente, mas não para cometer pecados, reclamar ou entrar em brigas desnecessárias, mas sim para promover mudanças, oferecer soluções e transformações no mundo em que vivemos para o benefício de todos.[1]
Ire-se a tal ponto de produzir algo bom no mundo, a ponto de nunca mais precisar irar-se pelo mesmo motivo. Não coloque seu foco e sua energia nos problemas, mas nas soluções. Uma pessoa vitoriosa é uma pessoa solucionadora de problemas.
No fim, você sempre será lembrado pelos problemas que causou e pelos problemas que solucionou.[2]
Segundo alicerce | Paixão
São poucas as coisas na vida capazes de despertar em você uma paixão profunda. Não porque você seja uma pessoa indiferente, mas porque o seu coração não se entrega com a mesma intensidade a diversos propósitos.
Observe quais experiências despertam em você emoções como intensa alegria, choro de felicidade, risos prolongados, arrepios, alterações na respiração, grande entusiasmo, fascínio, contemplação, arrebatamento. Esses sinais geralmente indicam aquilo que mais ressoa com a sua natureza interior.
Quando duas ou mais dessas emoções surgirem de forma simultânea, é provável que você esteja se conectando com aquilo que desperta a sua paixão e, consequentemente, aproximando-se de sua vocação e de sua missão de vida.
A paixão sustenta esforços que dificilmente seriam mantidos apenas pela sua capacidade intelectual.
Ela pode fazer por você mais do que dez cursos superiores juntos.
Todas as pessoas que deixam marcas significativas na sociedade costumam ter algo em comum: elas são profundamente apaixonadas pelo que fazem.
Essa paixão profunda não é movida pelo desejo de engrandecer a si mesmo, mas pelo desejo altruísta de fazer o bem no mundo: uma disposição interior de colocar os próprios dons a serviço dos outros. [3]
A paixão profunda não carrega em sua natureza o desejo de servir ao ego, mas de servir ao amor.
Terceiro alicerce | Sacrifício Natural
Observe a si mesmo. Quando você fizer algo produtivo sem se preocupar com as horas, sem ficar de olho no relógio e sentir que as horas passaram rápido, esse é um forte indício de que você está realizando algo que nasceu para fazer.
Quando você fizer algo em que o próprio ato de fazer é prazeroso de forma espontânea, traz sensação de existência, e não te deixa preocupado em demasia com o quanto lucrará em dinheiro, é sinal fortíssimo de que você está realizando a sua missão de vida.
No momento em que você estiver cumprindo a sua missão de vida, fará sacrifícios naturais para realizar aquilo. No início, você praticamente paga para fazer, de tanta satisfação que aquilo te dá.
Quem realmente ama o que faz investe tempo e dinheiro naquilo que faz. Portanto, na ocasião em que você tiver disposição natural para sacrificar seu tempo e seu dinheiro para realizar algo, você provavelmente realizará a sua missão neste mundo.
Porém, preste muita atenção no que você vai investir seu tempo e seu dinheiro. Porventura, colocaria o seu coração naquilo que não é nada? Onde você investir seu tempo e seu dinheiro, ali seu coração irá repousar.[4]
O Fundamento Ontológico
Quando você viver a sua vocação, as pessoas darão graças a Deus pela sua vida e pelo bem que Ele fará por meio de você. Dirão que você possui um dom concedido por Deus. E estarão certas: é um dom mesmo.
Porque é o Senhor quem concede a sabedoria. Da sua boca procedem o conhecimento e o discernimento.[5]
Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto. Eles procedem do Pai das luzes, em quem não existe mudança nem sequer sombra produzida por variação.[6]
A sabedoria divina não nasce da vontade humana, mas da graça de Deus. Todo dom que possuímos procede do Criador, e, no último dia, prestaremos contas de todos os dons que nos foram confiados. Todo dom demanda esforço para evoluir, aperfeiçoar-se e multiplicar-se.[7]
Quando você fizer aquilo que nasceu para fazer, a recompensa nunca estará nos aplausos que receber, mas na paz de saber que está sendo um instrumento de Deus para melhorar a vida das pessoas e na serenidade de experimentar o sono dos justos.
O solitário vive em busca do seu próprio interesse e se opõe à verdadeira sabedoria.[8]
A sabedoria que vem do alto é, antes de tudo, pura. Depois, é pacífica, amável, aberta a ouvir, cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial e sincera.[9]
A verdadeira sabedoria não consiste em buscar o próprio interesse ou o próprio crescimento. Você crescerá quando perceber que já possui tamanho suficiente para desfrutar da vida e produzir algo bom no mundo.
Percebo nas entrelinhas das Escrituras Sagradas um sentido da vida macro, que abrange todos os seres humanos da face da terra, de Gênesis a Apocalipse, de Adão ao último homem que nascer. Sem sombra de dúvidas ou variação, para as Escrituras Sagradas, o sentido da vida é amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como Cristo nos amou. O sentido da vida é conhecer a Deus e ser conhecido por Ele. O sentido da vida é ser santo e se santificar cada vez mais. O sentido da vida é viver uma relação de amor em que eu possa amar e ser amado.
Todos esses sentidos que te apresentei podem ser resumidos em um só. Um sentido que integra e sintetiza todos os que citei acima. Para as Escrituras Sagradas, o sentido da vida é fazer o outro crescer. Porque o sentido do amor é fazer o outro crescer. É, sem dúvidas, nessa ação diária que você vive a verdadeira essência do que é amar a Deus acima de todas as coisas e o próximo como Cristo nos amou.
Sempre que digo às pessoas sobre “fazer o outro crescer”, ouço coisas do tipo: “primeiro eu preciso me amar, depois eu amo os outros; primeiro eu preciso crescer, para depois fazer os outros crescerem.”
As pessoas não compreendem que o verdadeiro crescimento acontece quando, nas minhas condições, sou capaz de contribuir para o crescimento do outro.
Todo aquele que se concentra apenas em si mesmo, age como um egoísta, e acaba se tornando alguém semelhante a um diabo, que apenas utiliza as pessoas buscando sempre os próprios interesses.
O que importa na vida não é o mero fato de termos vivido. A diferença que fizemos na vida dos outros é que determinará a importância da vida que levamos.[10]
Os rios não bebem sua própria água; as árvores não comem seus próprios frutos; o Sol não brilha para si mesmo e as flores não espalham sua fragrância para si. Viver para os outros é uma regra da natureza. A vida é boa quando você está feliz, mas a vida é muito melhor quando os outros estão felizes por sua causa.[11]
Não existe honra nenhuma em buscar a própria honra.[12]
Referências
[1] Neemias se ira contra a injustiça social e combate a exploração do povo.
[2] 21 Leis Universais. Ivan Maia Treinamentos. E-book. 2021.
[3] Joshua Fields Millburn. The Minimalist. Documentary. Netflix. 2021.
[4] Mateus 6:21.
[5] Provérbios 2:6
[6] Tiago 1:17
[7] Mateus 25:14–30 | Lucas 19:11–27
[8] Provérbios 18:1
[9] Tiago 3:17
[10] Nelson Mandela.
[11] (ARQUEJADA, 2019, p. 69).
[12] Provérbios 25:27 | 1 Samuel 17:46.