9. E Sara viu o filho de Agar, a egípcia, o qual ela dera à luz a Abraão, zombando de Isaque.
10. E ela disse a Abraão: “'Expulsa' esta serva e o seu filho; porque o filho desta serva não herdará com o meu filho, com Isaque.”
11. E esta palavra pareceu muito má aos olhos de Abraão, por causa de seu filho.
12. E disse Deus a Abraão: “Não pareça mau aos teus olhos por causa do moço e por causa da tua serva; em tudo o que Sara te disser, ouve a sua voz; porque em Isaque será chamada a tua descendência.”
13. “E também do filho desta serva farei uma nação, porque ele é a tua descendência.”
14. E levantou-se Abraão de manhã cedo, e tomou pão e um odre de água, e os deu a Agar, pondo-os sobre o ombro dela; deu-lhe também o menino, e a 'mandou embora'; e ela foi e andou errante no deserto de Berseba.
15. E esgotou-se a água do odre, e ela deitou o menino debaixo de um dos arbustos.
16. E ela foi e assentou-se à frente, afastando-se à distância de um tiro de arco (cerca de 100 a 150 metros); pois disse: “Para que eu não veja a morte do menino.” E assentou-se à frente, e levantou a sua voz e chorou.
17. E ouviu Deus a voz do menino, e o anjo de Deus chamou a Agar desde os céus e disse-lhe: “Que tens, Agar? Não temas, porque Deus ouviu a voz do menino no lugar onde ele está.”
18. “Levanta-te, ergue o menino e segura-o firmemente pela mão; porque dele farei uma grande nação.”
19. E abriu Deus os seus olhos, e ela viu um poço de água; e foi, e encheu o odre de água, e deu de beber ao menino.
20. E esteve Deus com o moço, e ele cresceu; e habitou no deserto, e tornou-se atirador de arco.
21. E habitou no deserto de Parã; e sua mãe tomou-lhe mulher da terra do Egito.
Nota explicativa de duas palavras hebraicas principais em Gênesis 21:10, 14:
A análise do texto no hebraico massorético revela uma sutil, porém profunda, transição jurídica e teológica no desenrolar da narrativa.
No versículo de Gênesis 21:10, a exigência de Sara por um descarte sumário é expressa pela palavra גָּרֵשׁ (Ga-RESH, derivada da raiz גָּרַשׁ — Ga-RASH), cuja classe gramatical é a de verbo no modo imperativo masculino singular no grau intensivo Piel, tendo como os três significados mais precisos para o momento: expulsar, banir e despojar.
Já no versículo de Gênesis 21:14, Abraão altera a natureza da partida ao cumprir a ordem divina por meio da palavra וַיְשַׁלְחֶהָ (va-ye-shal-le-CHE-ha, derivada da raiz שָׁלַח - Sha-LACH), derivada da raiz שָׁלַח — Sha-LACH cuja classe gramatical é a de verbo na 3ª pessoa do masculino singular no imperfeito com vav conversivo no grau Piel (acrescido de sufixo pronominal feminino), tendo como os três significados mais precisos para o momento: mandar embora, despedir e repudiar.
Mais adiante, veremos mais vezes a palavra Shal-LACH e suas implicações no texto. Esta palavra de Gênesis 21:14 é a mesma palavra de Malaquias 2:16, onde algumas Bíblias traduziram como 'divórcio'.
7. E se um homem vender a sua filha para ser escrava, ela não ficará livre como ficam livres os escravos homens.
8. Se ela não agradar aos olhos do seu senhor, que a tomou por esposa, ele permitirá que ela seja resgatada; não terá o direito de vendê-la a um povo estrangeiro, por ter agido deslealmente com ela.
9. Mas, se ao seu filho a der em casamento, deverá tratá-la com os mesmos direitos de uma filha.
10. Se ele se casar com uma segunda mulher, não poderá privar a primeira do seu sustento, do seu vestuário nem dos seus direitos conjugais.
11. Mas se ele não lhe assegurar estas três obrigações, ela obterá a sua alforria gratuitamente, sem pagamento de resgate.
10. Quando saíres à guerra contra os teus inimigos, e o SENHOR, teu Deus, os entregar nas tuas mãos, e deles tomares prisioneiros,
11 e se vires entre as cativas uma mulher de bela aparência, e te afeiçoares a ela, e a tomares para ti por esposa,
12 então a levarás para o interior da tua casa; e ela raspará a cabeça e cortará as unhas.
13. Ela despirá a veste do seu cativeiro, habitará em tua casa e chorará por seu pai e por sua mãe durante um mês inteiro; somente depois disso coabitarás com ela e assumirás o papel de marido, e ela será tua esposa.
14. E se acontecer de não mais te agradares dela, a mandarás embora em total liberdade; de modo nenhum a venderás por prata, nem a tratarás como escrava, visto que a humilhaste.
Nota ao leitor: confira agora uma breve explicação sobre o sentido de "mandar embora" (Ve-shillachtah) no direito bíblico e o contexto histórico.
No texto hebraico original, o verbo traduzido por "a mandarás embora" (וְשִׁלַּחְתָּהּ | Ve-shillachtah) deriva da raiz shalach.
No entanto, ele não aparece na sua forma simples, que significaria apenas "enviar alguém para uma tarefa", mas sim no grau intensivo denominado Piel (shilleach / shillach).
No grau Piel, a ação ganha força jurídica e passa a significar mandar embora, despedir, conceder alforria, emancipação e soltar definitivamente. Quem é "mandado embora" sob esta lei deixa de estar sob qualquer tutela, autoridade ou domínio do antigo marido.
O texto bíblico acrescenta a expressão le-naphshah, literalmente, "para a sua própria vontade". Assim, "mandar embora em total liberdade" significa devolver à mulher o direito irrestrito sobre a sua própria vida, permitindo que siga para onde desejar.
Sobre o contexto, compreendo que toda legislação não surge no vácuo, do nada, sem motivo; pelo contrário, ela é sempre criada para conter uma conduta irregular existente praticada por muitos.
Na Antiguidade Oriental, o saque de guerra e o estupro/escravização de mulheres capturadas eram a norma entre os exércitos. Flávio Josefo enfatiza em sua obra Antiguidades Judaicas que o legislador Moisés uniu o ensino verbal aos exercícios práticos porque conhecia a inclinação das paixões humanas e a dureza dos tempos de guerra.
Moisés escreveu Deuteronômio 21:10-14 exatamente para impor um freio legal aos desejos desordenados e à brutalidade dos próprios soldados israelitas em combate. A lei reconhece a realidade da guerra, mas intervém nela para desmanchar o ciclo de mercantilização.
O período de luto (1 mês) forçava o homem a conter seu impulso imediato, respeitar a dor da mulher e enxergá-la como um ser humano com família e história, e não como mera presa.
A proibição da venda por prata (makhor lo-timkerennah bakkesef) impedia que o lar israelita virasse um depósito de tráfico humano.
Ao exigir que o homem a "mande embora em total liberdade", a Torá estabeleceu um marco humanitário inegociável. Proibiu categoricamente que a mulher fosse vendida por prata (makhor lo-timkerennah bakkesef) ou rebaixada de volta à condição de escrava (lo-tit'ammer bah), porque foi acolhida e elevada à condição de esposa legítima no lar israelita.
De acordo com a cronologia dos fatos estabelecida por Flávio Josefo em Antiguidades Judaicas, escrito por volta de 100 d.C., esta lei de Deuteronômio 21:10-14 ocorreu no 40º ano após o Êxodo do Egito, correspondendo aproximadamente ao ano 1451 a.C. (século XV a.C.).
Josefo destaca a legislação mosaica de guerra para provar ao mundo greco-romano que a Torá alcançou um padrão de humanidade e equidade (epieikeia) muito superior ao das leis gregas ou romanas.
Josefo viveu a Guerra Judaico-Romana (66–70 d.C.) e viu com os próprios olhos dezenas de milhares de mulheres e crianças judias sendo leiloadas como mercadoria barata e expostas ao massacre pelos generais romanos.
Ao relembrar aos gregos e romanos as leis de Moisés, Josefo contrasta a suposta "civilidade" de Roma, que mercantilizava cativos, com a elevação moral da Lei Mosaica dada séculos antes.
Com relação à aplicação universal das leis de Deus a todos os povos, Flávio Josefo aborda o conceito de justiça natural. Em Antiguidades Judaicas (Livro XVI, Cap. VI, § 8), Josefo afirma que:
"A justiça natural é altamente adequada e proveitosa para todos os homens igualmente, tanto gregos quanto bárbaros, para a qual as nossas leis têm a maior consideração..."
Para Josefo, a Lei Mosaica não é um código restrito e arbitrário, mas uma expressão da justiça, do equilíbrio e da razão moral destinada ao benefício de toda a humanidade.
Bibliografia
JOSEPHUS, Flavius. The Works of Flavius Josephus. London: Milner and Company, 1860.
BÍBLIA Hebraica | Westminster Leningrad Codex. Edição de J. Alan Groves, H. Van Dyke Parunak e Emanuel Tov. Philadelphia: J. Alan Groves Center for Advanced Biblical Research, 1987.
16. Se um homem seduzir uma jovem solteira que não esteja prometida em casamento e se deitar com ela, pagará o dote matrimonial e a tomará por sua mulher.
17. Mas, se o pai dela se recusar definitivamente a concedê-la em casamento, ainda assim o homem que a seduziu pagará ao pai da moça o valor equivalente ao dote de uma jovem virgem.
Nota ao leitor: o valor estipulado pela lei bíblica para o dote/reparação de uma virgem era de 50 siclos de prata, que é igual a 575 gramas de prata pura.
13. Se um homem tomar uma mulher e tiver relações com ela e a odiar, 14. e atribuir a ela palavras de acusação, e espalhar contra ela uma má fama, e dizer: "A esta eu a tomei por mulher, e me acheguei a ela, e não encontrei nela sinais de virgindade."
15. Então, o pai da jovem e a mãe dela pegarão e trarão os sinais de virgindade da jovem aos anciãos da cidade, à porta.
("à porta", refere-se ao fato de que as portas da cidade funcionavam como o tribunal público da época, onde as autoridades julgavam as causas legalmente)
16. E o pai da jovem dirá aos anciãos: "Eu dei a minha filha a este homem por mulher, mas ele a odiou."
17. E ele lhe atribuiu palavras de acusação, dizendo: "Não encontrei sinais de virgindade na sua filha." Mas aqui estão os sinais de virgindade da minha filha. Então, estenderão o manto diante dos anciãos da cidade.
18. Então, os anciãos daquela cidade pegarão aquele homem e o açoitarão.
19. E o multarão em cem siclos de prata, e os darão ao pai da jovem, porquanto ele divulgou má fama contra uma virgem de Israel. Ela ficará sendo sua mulher, e ele não poderá mandá-la embora por todos os seus dias.
20. Porém, se o relato for verdadeiro, e não se encontrarem os sinais de virgindade da jovem...
21. Então, levarão a jovem para a porta da casa de seu pai, e os homens da sua cidade a apedrejarão com pedras até a morte, porque cometeu loucura em Israel, prostituindo-se na casa de seu pai; assim eliminarás o mal do meio de ti.
22. Se um homem for encontrado deitado com uma mulher que tem marido, então ambos serão mortos: o homem que se deitou com a mulher e a própria mulher. Assim, eliminarás o mal de Israel.
23. Se, porém, houver uma jovem virgem prometida em casamento, e outro homem a encontrar na cidade e se deitar com ela...
24. Então, fareis sair a ambos à porta daquela cidade, e os apedrejareis com pedras, de modo que morram: a jovem, porquanto não pediu socorro na cidade, e o homem, porquanto desonrou a mulher do seu próximo. Assim eliminarás o mal do meio de ti.
25. Se, porém, em campo aberto, um homem encontrar uma jovem comprometida em casamento e forçá-la a se deitar com ele, então morrerá apenas o homem que se deitou com ela.
26. E à jovem não farás nada. Não há na jovem pecado digno de morte. Porque assim como um homem se levanta contra o seu próximo e o assassina, tirando-lhe a vida, assim é este caso.
27. Pois em campo aberto a encontrou sozinha; a jovem comprometida clamou por socorro, mas não houve quem a socorresse.
28. Porém, se um homem encontrar uma jovem virgem que não está comprometida em casamento, e, forçando-a, deitar-se com ela, e forem flagrados...
29. Então, o homem que se deitou com ela dará ao pai da jovem cinquenta siclos de prata, e ela será sua mulher, porquanto a desonrou; ele não poderá mandá-la embora por todos os seus dias.
30. Nenhum homem poderá tomar para si a mulher de seu pai, nem descobrir a orla do manto de seu pai.
1. Se um homem tomar uma mulher e se casar com ela, se acontecer que ela não ache graça nos seus olhos por ele ter achado nela alguma coisa indecente, ele lhe escreverá um Documento de Divórcio, entregará na mão dela e a mandará embora de sua casa.
2. E, saindo da casa dele, ela irá e se casará com outro homem.
3. E se este último homem a odiar, e lhe escrever um documento de divórcio, entregando-o na mão dela e a mandar embora de sua casa, ou se este último homem, que a tomou para si por mulher, vier a morrer...
4. Não poderá o seu primeiro marido, que a mandou embora, voltar a tomá-la para ser sua mulher, depois que ela foi contaminada, pois isso é abominação perante o Senhor. Assim, não farás pecar a terra que o Senhor, teu Deus, te dá por herança.
סֵ֤פֶר - SĒ-p̄er - (Classe Gramatical: Substantivo masculino singular em estado construto) - 1. livro de, 2. certidão de, 3. rolo de, 4. documento de, 5. carta de.
כְּרִיתוּת֙ - kə-rî-ṮÛT - (Classe Gramatical: Substantivo feminino singular em estado absoluto de keritut) - 1. divórcio, 2. repúdio legal, 3. separação, 4. corte.
A tradução de "sefer" como "carta" ocorre principalmente em expressões jurídicas antigas, como "sefer keritut", tradicionalmente traduzida por "carta de divórcio". Essa associação decorre do fato de que, na antiguidade, um documento enviado de uma parte a outra para estabelecer direitos, ordens ou uma separação formal correspondia ao conceito de "carta", como as cartas de alforria. [1]
A Septuaginta grega traduziu esse termo pela expressão "biblion apostasiou", que carrega o significado de um pequeno rolo ou livreto contendo o atestado legal de divórcio. Desse modo, as versões em línguas modernas herdaram esse uso idiomático clássico, traduzindo o substantivo por "carta" para evidenciar que o documento era entregue em mãos à mulher, garantindo-lhe liberdade jurídica imediata perante a sociedade civil hebreia de sua época. [2]
Para uma tradução vernácula contemporânea fiel ao hebraico, o termo "sefer" é mais corretamente traduzido como "documento", "certificado" ou "escrito", dependendo do contexto de cada passagem bíblica. No caso específico de "sefer keritut", a expressão mais exata em português atual seria "documento de divórcio" ou "certidão de divórcio", em vez de "carta". Isso porque a palavra "carta" hoje remete a uma correspondência comum, enquanto "documento" transmite a devida seriedade, formalidade e validade jurídica do ato prescrito na Torá. Optar por "documento" ou "certidão" preserva o caráter técnico da legislação de Moisés e reconecta o leitor contemporâneo com as garantias legais e de proteção que a lei divina estabelecia para resguardar a integridade da mulher. [3]
Referências
[1] OLIVEIRA, Adriano José de. Soluções bíblicas para o dilema do divórcio. 2. ed. Rio de Janeiro: Autografia, 2024.
[2] STERN, David H. Comentário Judaico do Novo Testamento. Tradução de Regina Aranha. 3. ed. brasileira. Niterói, RJ: BV Books, 2021.
[3] FRANCISCO, Edson de Faria. Antigo Testamento Interlinear Hebraico-Português. Volume 1 - Pentateuco. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2015.
A proibição contida em Deuteronômio 24:1-4, que impede um homem de se casar novamente com sua ex-esposa caso ela tenha se casado com outro homem, serve como uma proteção ética para a dignidade do casamento e para evitar a banalização da união pactual.
Quando o texto bíblico afirma que a mulher foi "contaminada" (ou tornou-se "impura"), isso não significa de forma alguma que ela cometeu um pecado moral ao se casar pela segunda vez, pois o segundo casamento é plenamente legítimo e ela tinha o direito de reconstruir sua vida.
Na verdade, os conceitos de pureza e impureza na Torá são de natureza espiritual e relacional, e não meramente físicos ou morais.
Existem três razões principais para essa determinação:
Prevenção do divórcio impulsivo: A impossibilidade de reatar o casamento com a ex-esposa caso ela se casasse com outro servia como um forte freio moral para o marido. Sabendo que a separação seria definitiva e irreversível se ela seguisse em frente, o homem era constrangido a não se divorciar por qualquer motivo fútil ou de forma apressada, combatendo a dureza de coração da época.
Evitar a mercantilização da mulher: Na antiguidade, a proibição impedia que o casamento se tornasse um arranjo abusivo de "troca de parceiros" ou transações financeiras disfarçadas de casamentos e divórcios sucessivos, o que degradaria a santidade do lar e poluiria espiritualmente a sociedade e a terra.
A proteção da integridade da mulher: O historiador Flávio Josefo pontua que a exigência de uma carta de divórcio (guet) por escrito dava à mulher a liberdade jurídica de se casar novamente. O impedimento de retorno impedia que o primeiro marido, por mero capricho, possessividade ou ciúme tardio, interferisse na nova vida dela ou tentasse desfazê-la.
Essa barreira jurídica é tão marcante na Torá que o próprio Deus a utiliza como pano de fundo para revelar a imensidão da Sua graça por meio do profeta Jeremias. O profeta cita expressamente a lei de Deuteronômio 24, lembrando que uma mulher que pertenceu a outro não poderia voltar ao primeiro marido para não poluir a terra. Contudo, o Criador faz um paralelo com Israel, dizendo que, embora a nação tenha agido como uma esposa infiel indo atrás de muitos amantes (outros deuses), a misericórdia divina supera a rigidez da própria lei: "Ainda assim, retorna para Mim, diz o Eterno".
Referências
Flávio Josefo. História dos Hebreus.. 1990 CPAD
Perry Stone. Desvendando o Código Judaico: 12 segredos que transformarão sua vida, sua família, sua saúde e suas finanças. Luz às Nações. 2015.
David H. Stern. Comentário Judaico do Novo Testamento. Editora Atos. 2008
Emily Solis Cohen. A Mulher na Tradição Judaica.
Associação Judaica de Apoio. Antimissionário.
Eliezer Papo. 100 Conselhos extraordinários
Nota ao leitor: Este texto foi construído a partir de uma pergunta que recebi de um leitor, e por ser uma pergunta muito boa, resolvi postar minha resposta a ele aqui neste site para que mais pessoas possam ler, pois acredito que pode ser uma dúvida de muitos.
Assim diz Yahweh: Onde está a Carta de Divórcio de vossa mãe, pela qual eu a mandei embora? Ou qual dos meus credores é aquele a quem eu vos vendi? Eis que pelas vossas iniquidades fostes vendidos, e pelas vossas transgressões vossa mãe foi mandada embora.
10. Acaso não temos nós todos um mesmo pai? Acaso não nos criou um mesmo Deus? Por que agimos deslealmente cada um contra o seu irmão, profanando a aliança de nossos pais?
11. Judá agiu deslealmente, e uma abominação foi cometida em Israel e em Jerusalém; pois Judá profanou o santuário do Senhor, que Ele ama, e casou-se com a filha de um deus estrangeiro.
12. O Senhor eliminará das tendas de Jacó o homem que praticar isso, o que desperta e o que responde, mesmo que ele apresente oferta ao Senhor dos Exércitos.
13. E vocês fazem isto novamente: cobrem de lágrimas o altar do Senhor, com choro e gemidos, de modo que Ele já não atenta para as vossas ofertas, nem aceita com agrado o que vem das vossas mãos.
14. E vocês ainda perguntam: "Por quê?" É porque o Senhor foi testemunha entre você e a mulher da sua mocidade, contra a qual você agiu deslealmente, sendo ela a sua companheira e a mulher da sua aliança.
15. Por acaso não fez Deus um só (Adão) e um remanescente de espírito para ele (Eva)? E o que o um (Adão) buscava? Uma semente de Deus. Portanto, guardai-vos em vosso espírito e com a mulher de sua mocidade ninguém aja deslealmente.
16. Se ele a odeia e a manda embora, diz o Senhor, o Deus de Israel, então a violência cobrirá a veste dele, diz o Senhor dos Exércitos. Portanto, guardai-vos em vosso espírito e não procedais deslealmente.
Entre inúmeros detalhes que podemos discutir em Malaquias 2:10-16, quero começar pelo principal e com possibilidade de provar biblicamente, sem depender de opinião de teólogos ou historiadores, apenas da própria Escritura Sagrada e da gramática hebraica e grega: Estou falando de um dos principais erros de tradução das Bíblias do mundo inteiro, ocorrido em Malaquias 2:16, em que inúmeros tradutores traduziram como "Deus odeia o divórcio."
Malaquias 2:16 em hebraico original
|כִּֽי־שָׂנֵ֣א| שַׁלַּ֗ח | אָמַ֤ר | יְהוָה֙ | אֱלֹהֵ֣י | יִשְׂרָאֵ֔ל | וְכִסָּ֤ה | חָמָס֙ | עַל־לְבוּשׁ֔וֹ | אָמַ֖ר | יְהוָ֣ה | צְבָא֑וֹת וְנִשְׁמַרְתֶּ֥ם | בְּרוּחֲכֶ֖ם | וְלֹ֥א | תִבְגֹּֽדוּ׃
Malaquias 2:16 em hebraico transliterado
ki-sa-NE | šal-LACH | a-MAR | YHWH | e-lo-HEY | yis-ra-EL | we-chis-SAH | ha-MAS | al-le-vu-SHO | a-MAR | YHWH | tse-va-OT | we-nish-mar-TEM | be-ru-cha-CHEM | we-LO | tiv-go-DU
Malaquias 2:16 em português literal
Se | ele odeia | mandar embora | diz | Yahweh | Deus de Israel | então cobrirá | violência | a veste dele | diz | Yahweh | dos Exércitos | e guardai-vos | no vosso espírito | e não | procedais deslealmente
Classe Gramatical de cada palavra
כִּי | ki | Conjunção subordinativa condicional ou explicativa: se, pois, porque, visto que. que etc.
שָׂנֵא | sa-NE | Verbo no Qal perfeito, na 3ª pessoa do masculino singular: "ele odeia" ou "ele odiou". Não temos aqui, portanto, a expressão "eu odeio."
O verbo no Qal perfeito em hebraico indica que a ação já foi consumada. Exemplo: ele correu, ele chegou, ele cantou.
Mas, tratando-se de um verbo de estado mental ou de emoção, como o verbo odiar, no hebraico, significa que a pessoa entrou em um estado de ódio e permaneceu nele. A decisão foi tomada e consolidada no passado, mas a realidade permanece ativa no presente. Por isso, uma tradução fiel para o nosso idioma ocorre no presente contínuo: "ele odeia".
שַׁלַּח | šal-LACH | Verbo no Piel, infinito absoluto.
No hebraico bíblico, a raiz verbal ש־ל־ח (š-l-ḥ) tem como ideia fundamental o ato de fazer alguém ou algo ir de um lugar a outro, isto é: enviar, mandar, despachar, deixar partir. O sentido concreto é determinado pela construção verbal e pelo contexto.
Porém, no tronco intensivo/factitivo Piel, infinito absoluto, como no termo שַׁלַּח (shal-LACH), essa palavra assume o significado de "mandar embora", "expulsar", "despedir".
אָמַר | a-MAR | Verbo, Qal, perfeito, 3ª pessoa do masculino singular: disse, diz.
יְהוָה | YHWH | Substantivo próprio. Tetragrama Sagrado. Yahweh, Senhor.
אֱלֹהֵי | e-lo-HEY | Deus de | deuses de
יִשְׂרָאֵל | yis-ra-EL | Israel
וְכִסָּה | we-chis-SAH | Verbo, Piel perfeito, 3ª pessoa do masculino singular com vav consecutiva: "então cobrirá", "então revestirá".
A primeira letra dessa palavra é a vav "וְ". Ela normalmente tem a função copulativa. Ou seja, funciona em muitos casos exatamente como a letra "e" do português, servindo para unir duas ações.
Porém, nesta palavra, essa letra assume a função de uma vav consecutiva. Isso significa dizer que existe uma relação direta de causa e consequência entre a ação do verbo šal-LACH, da oração anterior, e a ação do verbo we-"chis-SAH". Logo, a letra vav "וְ" a "we", neste caso, se traduzida para o português como "então", expressa melhor a intenção do texto hebraico.
Logo após a letra vav, temos, portanto, o verbo "chis-SAH" no estado Piel, intensivo perfeito, e mantido na terceira pessoa do singular. Desta forma, uma tradução literal e adequada da palavra "we-chis-SAH" é "então cobrirá".
A vav consecutiva amarra as duas frases de forma inseparável, provando que, como consequência, quem "manda embora", "então, a violência cobrirá a veste dele".
חָמָס | ha-MAS | Substantivo masculino absoluto: violência, crueldade, injustiça.
עַל־לְבוּשׁוֹ | al-le-vu-SHO | preposição + substantivo masculino absoluto com sufixo pronominal: sobre a veste dele.
אָמַר | a-MAR | Verbo no estado perfeito, 3ª pessoa do masculino singular: disse, diz.
יְהוָה | YHWH | Yahweh - Substantivo próprio. Tetragrama Sagrado. Senhor.
צְבָאוֹת | tse-va-OT | dos Exércitos
וְנִשְׁמַרְתֶּם | we-nish-mar-TEM | e guardai-vos
בְּרוּחֲכֶם | be-ru-cha-CHEM | no vosso espírito
וְלֹא | we-LO | e não
תִבְגֹּדוּ | tiv-go-DU | procedais deslealmente
Esta minha proposta de tradução para Malaquias 2:16 é extremamente chocante, porque ela confronta muitos séculos de opressão religiosa aceita como natural no meio religioso. Durante muito tempo, acreditei na expressão “Deus odeia o divórcio”. Depois, passei a acreditar em outra versão, que diz: “Deus odeia o repúdio” ou “Deus odeia o mandar embora”, já transmitindo a ideia de que no livro de Malaquias não se trata de um simples divórcio com os direitos preservados, mas de um divórcio ilegal e desleal.
Contudo, após me autodesafiar a traduzir todo o capítulo 2 de Malaquias para compreender um pouco mais as Escrituras Sagradas, deparei-me inicialmente com a expressão “Se ele odeia” e percebi que as palavras não se encaixavam muito bem. Por fim, a expressão “então a violência cobrirá a veste dele” me deixou ainda mais intrigado. Depois, compreendi que essa segunda parte se conectava diretamente e de modo inseparável com a primeira parte do versículo.
Retirando a expressão "diz o Senhor, o Deus de Israel", da oração, a frase ficaria assim: "Se ele odeia e manda embora, então a violência cobrirá a veste dele."
Se fossem duas frases separadas, concordo que faria todo sentido dizer: “Porque Ele odeia o mandar embora, diz o Senhor, Deus de Israel”, dando a entender que o próprio Deus é quem odeia. A grande questão é que a frase seguinte é uma continuação da primeira, e não uma frase independente: “então a violência cobrirá a veste dele, diz o Senhor dos Exércitos”.
Então, percebi que, ao considerar todo o contexto do capítulo e acrescentar o “a”, pronome pessoal oblíquo átono, com função de objeto direto, no início do versículo, a frase adquiria maior fluidez e naturalidade. Foi então que cheguei à seguinte construção:
Se ele a odeia e a manda embora, diz o Senhor, o Deus de Israel, então a violência cobrirá a veste dele, diz o Senhor dos Exércitos. Portanto, guardai-vos em vosso espírito e não procedais deslealmente.
Para o leitor hebreu antigo, a veste de um homem possuía uma carga simbólica muito mais profunda do que a de um simples adereço estético, representando a própria identidade pública e o caráter do indivíduo. Vestir uma característica ou estar coberto por ela significava que tal conduta era habitual e visível a todos. Portanto, quando se lê que "a violência cobrirá a veste dele", o leitor de língua hebraica compreende imediatamente que a crueldade e a injustiça tornaram-se a manifestação externa, diária e constante do comportamento daquele homem. [1]
Existe também um forte paralelismo jurídico entre o ato do marido estender o seu manto e cobrir a esposa e a celebração do pacto de casamento no mundo bíblico. Como exemplificado no livro de Rute, espalhar a orla da vestimenta sobre a mulher simbolizava o compromisso legal de matrimônio e a promessa de proteção conjugal. Sob essa perspectiva ritual, o marido que manda embora e abandona a mulher de sua mocidade inverte o sentido protetivo do manto, fazendo com que o símbolo de amparo seja profanado. [2]
A parte mais chocante de tudo isso ocorreu quando conferi Malaquias 2:16 na Septuaginta, a primeira tradução da Bíblia Hebraica para outro idioma, o grego, realizada aproximadamente 150 anos após o livro de Malaquias ser escrito. Ou seja, a tradução para o grego do livro de Malaquias foi muito recente do ponto de vista histórico, com chances reais de uma tradução mais próxima à realidade da intenção do hebraico.
Confira a seguir a tradução de Malaquias 2:16 partindo da Septuaginta:
Malaquias 2:16 em grego original
ἀλλὰ ἐὰν μισήσας ἐξαποστείλῃς, λέγει κύριος ὁ θεὸς τοῦ Ισραηλ, καὶ καλύψει ἀσέβεια ἐπὶ τὰ ἐνδύματά σου, λέγει κύριος παντοκράτωρ· καὶ φυλάξεσθε ἐν τῷ πνεύμαti ὑμῶν καὶ οὐ μὴ ἐγκαταλίπηte. [3]
Malaquias 2:16 em grego transliterado indicando a sílaba tônica
al-LÁ | e-ÁN | mi-SÉ-sas | ex-a-pos-TÊI-leis | LÉ-guei | KÝ-ri-os | HO | the-ÓS | TOU | Is-ra-ÉL | KAI | ka-LÝ-psei | a-SÉ-bei-a | e-PÍ | TA | en-DÝ-ma-tá | SOU | LÉ-guei | KÝ-ri-os | pan-to-CRÁ-tor | KAI | phy-LÁ-xes-the | EN | TŌ | PNÊU-ma-ti | hy-MÓN | KAI | OU | MĒ | eng-ka-ta-LÍ-pe-te
Malaquias 2:16 em português literal correspondente ao grego
mas | se | tendo odiado | mandares embora | diz | Senhor | o | Deus | de | Israel | então | cobrirá | impiedade | sobre | as | vestes | de ti | diz | Senhor | Todo-Poderoso | e | guardareis-vos | em | o | espírito | de vós | e | não | de modo algum | abandoneis
Malaquias 2:16 em português fluente preservando o literal
Se, tendo-a odiado, você a mandar embora, diz o Senhor, o Deus de Israel, então a impiedade cobrirá as suas vestes, diz o Senhor Todo-Poderoso. Portanto, guardai-vos em vosso espírito e, de modo nenhum, a abandoneis.
Depois de ler isso, no dia 11/08/2026, fiquei em choque e, por algumas horas, foi como se o tempo tivesse literalmente parado. Fiquei completamente sem reação. Esta versão de Malaquias 2:16 que você acabou de ler está na Bíblia grega há cerca de 2300 anos.
E não, eu não sou o primeiro a enxergar essas traduções na Bíblia hebraica e grega. É verdade que ninguém me apresentou essas traduções. Fui construindo-as sílaba por sílaba, palavra por palavra. Contudo, ao finalizar essas versões de Malaquias 2:16, encontrei alguns sites que apresentavam a mesma interpretação e informavam que já existem Bíblias publicadas com essas versões.
Para não cansar você com outra longa lista gramatical, quero destacar apenas as provas centrais que os rabinos deixaram registradas na Septuaginta e que resolvem a questão de quem odeia e manda embora de forma muito clara.
No verbo grego "exaposteilēs", a assinatura de quem pratica a ação está cravada na terminação da palavra. Para você visualizar isso com clareza, vamos colocar esse verbo na lupa e separá-lo em duas partes:
A ação (o radical): "exaposteil" | Mandar embora.
O autor da ação (a desinência): "ēs" | É exatamente neste finalzinho, no "ēs", que o erro de tradução de séculos é resolvido com muita lucidez. Na gramática grega, essa terminação pertence única e exclusivamente à segunda pessoa do singular (o "tu" ou o "você"). Ou seja, a palavra "exaposteilēs" é corretamente traduzida pela expressão: "você manda embora".
Assim como fizemos com o ato de "mandar embora", vamos colocar as primeiras palavras da oração sob a mesma lupa. Antes de falar sobre o "mandar embora", o texto grego descreve a condição e o estado de coração do marido, usando as palavras "ean" e "misēsas".
A condição: "'ean" | Se, caso, mesmo se. Esta é uma palavra simples, mas essencial. Trata-se de uma conjunção condicional. Ela prepara o cenário indicando uma possibilidade, uma escolha do marido: "Se acontecer de..."
O estado interno do homem: misēsas | Tendo odiado. Aqui está a clareza do texto grego. Os tradutores não usaram um verbo comum (como "você odeia"), mas sim um verbo no particípio. Vamos separar essa palavra para visualizar como ela funciona:
A raiz da palavra: "misē" | Vem do verbo original miseō, que significa odiar ou detestar.
A forma gramatical: "sas" | Essa terminação indica uma ação que antecede o ato principal e é praticada por um sujeito no masculino singular. Em português, a forma gramatical "sas" transmite a ideia de: tendo, depois de, após.
O que o grego nos mostra aqui é fascinante: o ódio não é retratado como algo que pertence a Deus, e sim como um estado de rejeição prévio que se instalou no coração do homem. O marido primeiro alimenta o ódio ("tendo-a odiado") para, em seguida, tomar a atitude ("você a manda embora").
Como vimos no idioma hebraico, o objeto desse ódio e dessa expulsão já está implícito em todo o contexto, justificando o uso do pronome "a" para se referir à esposa e transmitir mais clareza na tradução para o português: "se, tendo-a odiado, você a mandar embora".
Então, caro leitor, cada vez que você ouvir alguém dizer em algum lugar a frase "Deus odeia o divórcio", seja nos púlpitos, nos livros, nos vídeos etc... saiba que essa frase nunca esteve em nenhum versículo da Bíblia Sagrada hebraica ou grega, mas ela é fruto de uma tradução interpretativa, que, muitas vezes, esteve motivada pelo desejo de oprimir as pessoas por meio da religião.
Acredito na simplicidade e inocência de muitas pessoas que apenas replicaram o que aprenderam. Mas acredito também que muitas pessoas replicaram a ideia de que "Deus odeia o divórcio", tendo no coração uma intenção má e, com um sorriso falso no rosto, praticaram um crime doloso contra a vida, um crime quando há intenção de matar.
Alguém até pode dizer que ao ler a Bíblia, do seu ponto de vista, acredita que Deus odeia o divórcio. Mas ninguém poderá dizer que essa afirmação está em Malaquias 2:16 ou em outro lugar nas Escrituras Sagradas.
Convido você, caro leitor, a examinar a minha versão deste versículo e pesquisá-la minuciosamente para conferir se o que digo é a verdade.
Continua ... Em construção...
Referências
[1] KOEHLER, Ludwig; BAUMGARTNER, Walter. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament. 2. ed. Leiden: Brill, 2001.
[2] VERHOEF, Pieter A. The Books of Haggai and Malachi. 1. ed. Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 1987.
[3] RAHLFS, Alfred; HANHART, Robert (eds.). Septuaginta: Id est Vetus Testamentum graece iuxta LXX interpretes. Editio altera. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2006.
Apresentamos acima a tradução direta, fundamentada nas duas testemunhas textuais mais antigas e reconhecidas das Escrituras: o texto hebraico massorético do Tanakh (Códice de Leningrado) e o grego da Septuaginta (LXX).
Entre as duas, a Septuaginta destaca-se como um documento cuja exatidão gramatical é mais facilmente demonstrável aos leitores ocidentais.
A riqueza sintática do grego koiné, com partículas modais mais claras e formas gramaticais mais próximas das que conhecemos em nossa língua, oferece elementos mais claros que facilitam a compreensão do sentido mais antigo da passagem.
Consideramos essas duas vertentes como os testemunhos mais fiéis e corretos do texto sagrado.
Ao longo da história da transmissão textual, contudo, Malaquias 2:16 consolidou-se como um dos versículos mais polêmicos de todo o cânon bíblico, dividindo estudiosos e tradutoresao através dos séculos.
O distanciamento do sentido original não ocorreu de forma abrupta, mas por meio de mudanças graduais. A primeira e mais decisiva dessas alterações consistiu em transformar o verbo que trata do repúdio da mulher, que originalmente se encontra no modo subjuntivo e condicional (“se tu a mandares embora”), para o modo imperativo (“despede-a” ou “deixa-a ir”).
A partir dessa primeira mudança na estrutura da frase, abriram-se as portas para outras alterações ainda mais profundas, que acabaram por inverter os sujeitos da oração em diversas tradições para outros idiomas.
Dessa forma, disponibilizamos abaixo as principais versões históricas de Malaquias 2:16 produzidas ao longo dos séculos, abrangendo diversas tradições religiosas e os principais marcos da tradição bíblica em língua portuguesa.
A transcrição dessas obras atende estritamente ao compromisso com a honestidade intelectual, a preservação documental e o rigor histórico-filosófico.
A presença de tais traduções nesta biblioteca não significa, em hipótese alguma, concordância teológica com as suas escolhas lexicais.
Seu propósito é permitir que o leitor constate, por meio do exame direto das fontes primárias, que a crítica aqui exposta não se trata de uma dedução isolada ou subjetiva deste portal, mas do resgate documentado de uma controvérsia exegética milenar.
Malaquias 2:16 em hebraico | Tanakh | 433 a.C
|כִּֽי־שָׂנֵ֣א| שַׁלַּ֗ח | אָמַ֤ר | יְהוָה֙ | אֱלֹהֵ֣י | יִשְׂרָאֵ֔ל | וְכִסָּ֤ה | חָמָס֙ | עַל־לְבוּשׁ֔וֹ | אָמַ֖ר | יְהוָ֣ה | צְבָא֑וֹת וְנִשְׁמַרְתֶּ֥ם | בְּרוּחֲכֶ֖ם | וְלֹ֥א | תִבְגֹּֽדוּ׃
Tradução fiel:
Se ele a odeia e a manda embora, diz o Senhor, o Deus de Israel, então a violência cobrirá a veste dele, diz o Senhor dos Exércitos.
Malaquias 2:16 em grego | Septuaginta | 100 a.C. a 150 a.C
ἀλλὰ ἐὰν μισήσας ἐξαποστείλῃς, λέγει κύριος ὁ θεὸς τοῦ Ισραηλ, καὶ καλύψει ἀσέβεια ἐπὶ τὰ ἐνδύματά σου, λέγει κύριος παντοκράτωρ· καὶ φυλάξεσθε ἐν τῷ πνεύμαti ὑμῶν καὶ οὐ μὴ ἐγκαταλίπηte.
Tradução fiel:
Se, tendo-a odiado, você a mandar embora, diz o Senhor, o Deus de Israel, então a impiedade cobrirá as suas vestes, diz o Senhor Todo-Poderoso. Portanto, guardai-vos em vosso espírito e, de modo nenhum, a abandoneis.
Malaquias 2:16 em latim | Vetus Latina | Séculos II a IV d.C. | Primeiras comunidades cristãs.
"Sed si odio habens, dimiseris eam, dicit Dominus Deus Israel: operiet impietas cogitationes tuas, dicit Dominus omnipotens: & custodite in spiritu vestro, & nolite derelinquere."
Tradução fiel:
Mas se, odiando-a, a despedires, diz o Senhor Deus de Israel, a impiedade cobrirá os teus pensamentos, diz o Senhor Todo-Poderoso: e guardai no vosso espírito, e não [a] abandoneis.
Malaquias 2:16 em latim | Vulgata Original | 405 d.C. | São Jerônimo
Cum odio habueris, dimitte, dicit Dominus Deus Israel: operiet autem iniquitas vestimentum eius, dicit Dominus exercituum: custodite spiritum vestrum, & nolite despicere.
Tradução fiel:
Quando a tiveres em ódio, despede-a, diz o Senhor Deus de Israel; mas a iniquidade cobrirá a veste dele, diz o Senhor dos Exércitos. Guardai o vosso espírito, e não a desprezeis.
Malaquias 2:16 em alemão | Bíblia de Lutero | Wittenberg | 1545 d.C
Wer ir aber gram ist / der lasse sie faren / spricht der HERR der Gott Israel / vnd gebe ir ein Decke des frevels von seinem Kleide / spricht der HERR Zebaoth. Darumb / so sehet euch fur / fur eurem Geist / vnd verachtet sie nicht.
Tradução fiel:
Aquele, porém, que a odiar, que a deixe ir, diz o SENHOR, o Deus de Israel, dá a ela um manto de violência a partir de sua própria veste, diz o SENHOR dos Exércitos. Portanto, guardai-vos no vosso espírito e não a desprezeis.
Malaquias 2:16 em inglês | Bíblia de Genebra | 1560
For the Lord God of Israél saith, that he hateth putting away: for he couereth the iniurie under his garment, saith the Lord of hostes: therefore kepe your spirit, and deale not vnfaithfully.
Tradução fiel para o Português:
Porque o Senhor Deus de Israel diz que odeia o mandar embora, porque ele cobre a injustiça debaixo da veste dele, diz o Senhor dos Exércitos; portanto, guardai o vosso espírito e não procedais infielmente.
Nota ao leitor: a palavra "ele" e "dele" se refere ao homem que manda embora.
Malaquias 2:16 em latim | Vulgata Clementina (Editio Typica) | 1592 d.C | Comissão Pontifícia Revisora
Cum odio habueris, dimitte, dicit Dominus Deus Israël : operiet autem iniquitas vestimentum ejus, dicit Dominus exercituum. Custodite spiritum vestrum, et nolite despicere.
Tradução fiel:
Quando a tiveres em ódio, despede-a, diz o Senhor Deus de Israel; mas a iniquidade cobrirá a veste dele, diz o Senhor dos Exércitos. Guardai o vosso espírito, e não a desprezeis.
MALACHI 2:16 em linglês | Bíblia King James 1611
For the LORD the God of Israel saith, that he hateth putting away: for one couereth violence with his garment, saith the LORD of hosts, therefore take heed to your spirit, that ye deale not treacherously.
Tradução fiel:
Porque o Senhor, Deus de Israel, diz que odeia o mandar embora; pois aquele que cobre de violência a sua veste, diz o Senhor dos Exércitos. Portanto, guardai-vos em vosso espírito e não procedais com infidelidade.
Malaquias 2:16 em português | Bíblia JFA 1850
Porque Jehovah Deos de Israel diz, que aborrece o quitar, ainda que encubra a violência com seu vestido, diz Jehovah dos exercitos: portanto guardai-vos com vosso espirito, que não trateis aleivosamente.
Malaquias 2:16 em português | Bíblia JFA 1904
Porque o Senhor Deus de Israel diz que aborrece o repudio, e aquelle que encobre a violência com o seu vestido, diz o Senhor dos Exércitos: portanto guardae-vos em vosso espirito, e não sejaes desleaes.
Malaquias 2:16 | Bíblia TB | Tradução Brasileira 1917
Pois aborreço o divorcio, diz Jehovah, Deus de Israel, e aquelle que cobre de violencia os seus vestidos, diz Jehovah dos exercitos; portanto guardae o vosso espirito, para que não vos hajaes aleivosamente.
Nota ao leitor: primeira vez que encontrei a palavra divórcio em uma Bíblia em português. 1917.
Malaquias 2:16 em português | Tradução de Padre Manoel de Matos Soares | 1927 d.C.
Se tu a aborreceres, repudia-a, diz o Senhor Deus de Israel; mas a iniquidade cobrirá o seu vestido, diz o Senhor dos exércitos. Guardai, pois, o vosso espírito, e não queirais desprezá-la.
Malaquias 2:16 em português | Tradução de Padre Manoel de Matos Soares | 1956 d.C.
Quando alguém, por aversão, repudia (a mulher), diz o Senhor Deus de Israel, cobre de injustiça as suas vestes, diz o Senhor dos exércitos. Acautelai, pois, a vossa vida e não sejais pérfidos.
Nota ao leitor: na versão de 1927, o padre Manoel de Matos Soares colocou o repúdio no imperativo. Na versão de 1956 ele retirou o imperativo e colocou no presente do indicativo. Desta forma, compreendo que ficou mais próximo da versão da primeira Septuaginta e da primeira Vulgata Latina. Onde o homem a repudia por causa do seu próprio ódio.
Malaquias 2:16 em português | Bíblia JFA 1969
Porque o Senhor Deus de Israel diz que aborrece o repúdio, e aquele que encobre a violência com o seu vestido, diz o Senhor dos Exércitos: portanto guardai-vos em vosso espírito, e não sejais desleais.
Malaquias 2:16 em latim | Nova Vulgata (Bibliorum Sacrorum Nova Vulgata Editio) | 1979 d.C. | Comissão Pontifícia para a Revisão da Vulgata | Promulgada pelo Papa João Paulo II
Si quis odio dimittit, dicit Dominus, Deus Israel, operit iniquitas vestimentum eius, dicit Dominus exercituum. Custodite spiritum vestrum et nolite esse infideles.
Tradução fiel:
Se alguém por ódio a despede, diz o Senhor, Deus de Israel, a iniquidade cobre a sua veste, diz o Senhor dos Exércitos. Guardai o vosso espírito e não sejais infiéis.
(Aqui a Vulgata Clementina volta à versão da Vulgata do século 2 a 4.; a primeira Vulgata em latim que existiu na história.)
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