Escuta a minha lei, povo meu. Inclinai os vossos ouvidos às minhas palavras. Abrirei a minha boca em parábolas, falarei enigmas do mundo antigo.
Salmos 78:1-2
Certa vez, um religioso chamado Angustos Nicodemos se levantou na assembleia com o objetivo de pôr Jesus à prova, e lhe perguntou:
— Mestre, o que eu preciso fazer para herdar a vida eterna?
Então Jesus lhe perguntou:
— O que está escrito na Lei, Angustus? Conte-me como você a entende.
A isto Angustos respondeu:
— Ame ao Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, com todas as suas forças e todo o seu entendimento. E ame ao seu próximo como você ama a si mesmo.[1]
Então Jesus lhe disse:
— Parabéns, Angustos Nicodemos. Vejo que você sabe sobre a verdade. Faça isso e você viverá. Faça isso e o seu nome não será retirado do livro da vida.
Mas Angustos, querendo justificar sua própria falha em amar, perguntou a Jesus:
— Mestre, mas afinal, quem é o meu próximo?
E Jesus lhe respondeu:
— Irei lhe contar uma parábola para ajudá-lo na descoberta de quem é o seu próximo.
Certa vez, um homem chamado Lázaro Santos trabalhou o mês inteiro como garçom em uma movimentada churrascaria no bairro Mangabeiras, em Belo Horizonte -MG. No fim do mês, ao receber todo o seu salário, sentiu a euforia do dever cumprido e a felicidade de poder levar o sustento para sua mulher e filhos. Seu salário em notas era o peso da esperança em seu bolso. Entretanto, no trajeto de volta para sua humilde casa no Vila da Serra, ele cometeu o erro básico de passar por um trecho de má iluminação. Foi ali que três indivíduos o interceptaram. Já era noite, e sem piedade, os ladrões levaram todo o fruto de seu mês de suor: o dinheiro, o celular, o relógio e até os sapatos. Espancaram Lázaro até o limite da consciência e o abandonaram, à beira da calçada, quase morto. O sonho de alimentar a família se frustrava ali, pisoteado, em meio ao asfalto frio.
Por casualidade, o pastor batista Pedro Kairós estava descendo por aquele mesmo caminho e, vendo Lázaro Santos no chão, passou de largo e pensou: “Não o conheço. Nunca nem vi. Esse aí deve ter envolvimento com drogas para ter apanhado tanto”. E foi para o culto ministrar a Palavra.
De igual modo, o padre católico Tomé da Silva descia por aquele mesmo lugar e, vendo-o, passou de largo e disse: “Coitado desse homem, tomara que alguém o veja e resolva ajudá-lo. Eu preciso ministrar a missa, já estou atrasado”.
Entretanto, uma prostituta por nome de Raabe, que passava por aquele percurso, passou perto de Lázaro e, vendo-o, compadeceu-se dele.
E, aproximando-se, fez curativos nos ferimentos dele. Depois, colocou Lázaro dentro do seu próprio carro, levou-o para um hospital e pediu para que os médicos cuidassem dele.
No dia seguinte, Raabe voltou ao hospital e disse aos médicos: "Cuide bem deste homem. Faça o que for possível para que ele viva. Coloque todos os gastos em meu plano de saúde, que eu pago."
Então Jesus perguntou:
— Qual destes três lhe parece ter sido o próximo de Lázaro, que caiu nas mãos dos ladrões?
Angustos Nicodemos respondeu:
— A prostituta, a que usou de misericórdia para com ele.
Então Jesus lhe disse:
— Exatamente, você acertou. Agora vá e faça você o mesmo.
Moral da história:
Não é sem razão que o próprio Cristo, ao confrontar os religiosos de sua época, declarou: "Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vão à frente de vocês para dentro do Reino de Deus." (Mateus 21:31).
A lição é clara: o nosso “próximo” é qualquer pessoa que necessite da nossa ajuda naquele momento. Não importa quem ele seja, nem quem você seja. Não importa a posição social, a religião ou o passado moral do indivíduo. A única coisa que realmente importa é a misericórdia, a graça e o amor, quando colocados em prática, pois é exatamente essa atitude que prova a nossa íntima fé em Jesus Cristo, que nos conduz à salvação.
As Escrituras ensinam em Provérbios 10:12 que "O ódio provoca contendas, mas o amor cobre todas as rebeliões."
No hebraico original, a palavra usada para "rebeliões" é Pesha (פֶּשַׁע). Pesha não é um tropeço acidental, uma fraqueza momentânea ou um erro de cálculo. É a quebra deliberada de uma aliança; é a agressão consciente, armada e intencional contra o coração de quem ama. Quando a Escritura Sagrada declara que o amor (Ahavah) "cobre" todas as rebeliões, ela revela a força soberana do amor. Esse amor não existe apenas para perdoar pequenos deslizes do cotidiano. Ele possui um poder de ressurreição brutal, capaz de estender um manto de cura sobre a mais profunda das punhaladas. O amor não ignora o abismo da traição, mas desce até onde for necessário para preenchê-lo com redenção.
O amor não faz nada por interesse pessoal ou por vaidade, mas por humildade, considerando os outros superiores a nós mesmos. Ele não busca o próprio interesse, e sim o que é do outro.
Com a fé, nós recebemos a graça da salvação. Com o amor, nós nos entregamos como oferta de um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus.
Referências
[1] Deuteronômio 6:5 - Levítico 19:18.
Nota ao leitor: este texto é uma paráfrase inspirada na parábola do bom samaritano apresentada na Bíblia Sagrada em Lucas 10:25-37