A rima soante, também chamada de rima consoante ou perfeita, ocorre quando há correspondência sonora entre duas ou mais palavras, a partir da vogal tônica até o final do vocábulo.
Essa igualdade acústica abrange tanto as vogais quanto as consoantes, criando uma coincidência sonora completa.
Ao contrário da rima toante, que preserva apenas a correspondência das vogais tônicas, a rima soante produz uma harmonia mais plena, conferindo ao poema uma cadência tradicional, marcante e agradável ao ouvido.
O emprego consciente desse recurso exige do escritor sensibilidade e precisão na escolha do vocabulário.
A repetição dos sons estabelece uma simetria sonora que pode favorecer a memorização do poema e conferir maior unidade à construção do pensamento poético.
Quando utilizada com equilíbrio e intenção, a rima soante realça a mensagem da obra e demonstra como a técnica, quando bem trabalhada, pode enriquecer a melodia da palavra sem comprometer a espontaneidade da criação artística.
Para compreender a beleza e a precisão da rima soante na tradição literária, apresentamos, a seguir, três demonstrações extraídas de obras importantes da literatura em língua portuguesa.
Cada citação mostra como a correspondência entre vogais e consoantes pode construir versos memoráveis, nos quais musicalidade e sentido caminham em harmonia, envolvendo o leitor com força e delicadeza.
“O poeta é um fingidor. Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.”
PESSOA, Fernando. Autopsicografia. In: Cancioneiro. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1932.
Nesta famosa estrofe de Fernando Pessoa, a rima soante manifesta-se na aproximação entre as palavras “fingidor” e “dor”. A correspondência sonora do segmento “-dor” é completa, unindo a reflexão sobre a criação poética à expressão do sentimento humano.
Essa concordância sonora confere ao quarteto uma ressonância marcante e demonstra como a precisão da forma pode fortalecer a expressão do pensamento lírico.
“Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!”
ABREU, Casimiro de. Meus Oito Anos. In: As Primaveras. Rio de Janeiro: Tipografia de Paula Brito, 1859.
No conhecido poema de Casimiro de Abreu, a rima soante evidencia-se na combinação entre “vida” e “querida”.
A terminação “-ida” se repete de maneira idêntica, criando uma sonoridade suave e harmoniosa. Essa igualdade sonora contribui para a atmosfera de ternura e nostalgia do poema, mostrando como o equilíbrio formal pode servir, com simplicidade e beleza, à expressão das lembranças da infância.
“Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!”
ESPANCA, Florbela. Eu. In: Livro de Mágoas. Lisboa: Tipografia Nascimento, 1919.
Na poesia de Florbela Espanca, a rima soante destaca-se na aproximação entre “perdidamente” e “gente”.
O segmento final “-ente” estabelece uma correspondência sonora que une o advérbio ao substantivo com elegância. Essa precisão acústica acompanha a intensidade do sentimento amoroso presente no poema e mostra como o rigor formal pode caminhar ao lado da paixão, da delicadeza e da expressividade.
Para praticar a rima soante em seus textos, comece registrando suas ideias de maneira livre e espontânea.
Depois, durante a etapa de revisão, observe as palavras que aparecem no final dos versos e procure aquelas cujos sons coincidam nas vogais e nas consoantes, a partir da vogal tônica.
O uso de um dicionário de rimas e o hábito de ler os versos em voz alta também podem auxiliar nesse exercício, desenvolvendo o ouvido, ampliando o vocabulário e fortalecendo o domínio da linguagem poética.
A técnica não existe para engessar a imaginação, mas para dar forma e contorno àquilo que deseja nascer por meio da arte.
O ritmo deve servir ao sentido; a métrica, à expressão; a rima, à música; e a revisão, à clareza. A pausa e o engavetamento, entendido como o amadurecimento do texto ao longo do tempo, permitem que cada palavra encontre seu devido lugar na página, com naturalidade e propósito.
Experimente exercitar essa modalidade poética criando estrofes curtas durante seus momentos de estudo diário. Ao buscar a correspondência sonora entre os versos, você exercita a paciência, a precisão e a sensibilidade linguística, elevando gradualmente o nível estético de sua escrita.
Cultive a poesia como uma prática constante, capaz de unir técnica, contemplação, sensibilidade e verdade. Assim, palavras simples podem ganhar profundidade e transformar-se em mensagens duradouras no coração do leitor.
Que a sua poesia encontre na técnica não uma prisão, mas uma forma de liberdade; não um peso, mas uma música.
Referências Bibliográficas
ABREU, Casimiro de. As Primaveras. Rio de Janeiro: Tipografia de Paula Brito, 1859.
ESPANCA, Florbela. Livro de Mágoas. Lisboa: Tipografia Nascimento, 1919.
PESSOA, Fernando. Cancioneiro. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1932.