A rima toante, também denominada rima assonante, é uma modalidade de rima imperfeita em que se estabelece identidade entre as vogais tônicas das palavras que rimam.
Diferentemente da rima consoante, na qual há correspondência dos fonemas a partir da última vogal tônica, a rima toante preserva apenas a semelhança essencial das vogais tônicas.
Por isso, sua presença costuma produzir uma aproximação sonora mais discreta, criando um eco que envolve o verso sem lhe impor uma estrutura excessivamente rígida.
Essa delicadeza sonora faz da rima toante um recurso particularmente expressivo. Em vez de conduzir o leitor por uma coincidência sonora completa e facilmente perceptível, ela trabalha com a sugestão, com a aproximação e com o eco.
As palavras permanecem diferentes em sua constituição, mas encontram-se em determinado ponto de sua sonoridade. É justamente nessa distância preservada que reside parte de sua beleza.
Ao empregar esse recurso, o escritor demonstra sensibilidade para conduzir o leitor por uma atmosfera musical sem sacrificar a naturalidade da linguagem.
A ausência de uma correspondência consonantal completa pode reduzir a sensação de previsibilidade e favorecer uma sonoridade mais espontânea. Assim, a rima deixa de ser apenas um ornamento exterior e passa a integrar a própria arquitetura expressiva do poema.
Como observa a tradição dos estudos de versificação, a rima possui função estética e expressiva dentro da composição poética.
A rima toante, portanto, não precisa ser compreendida como simples recurso decorativo, mas como elemento que pode participar da construção do ritmo, da sonoridade e da unidade do poema.
“Aonde vais, meu cavalo, pela noite e pela névoa, com as tuas patas de ferro pela quebrada das pedras?”
MEIRELES, Cecília. Romanceiro da Inconfidência. Rio de Janeiro: Livraria de José Olympio Editora, 1953.
No célebre trecho de Cecília Meireles, a aproximação entre “noite ” e “névoa” pode ser observada pela semelhança de suas vogais tônicas.
Embora as consoantes não coincidam, existe uma aproximação vocálica que suaviza a passagem entre os termos.
O efeito é discreto, mas contribui para a atmosfera sonora do trecho, em que noite, névoa, cavalo, quebrada e pedras se unem numa paisagem de movimento e mistério.
“E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte severina,”
MELO NETO, João Cabral de. Morte e Vida Severina. In: Duas Águas. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1956.
Em Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, a aproximação entre “morremos” “mesma” “morte” contribui para a continuidade sonora da passagem.
A repetição das vogais cria uma ressonância que acompanha a repetição sintática e semântica do próprio texto. Desse modo, som e sentido caminham juntos, reforçando a cadência e a força expressiva dos versos. "Somos Severinos vida morremos mesma morte Severina."
“Como é boa a minha terra! Como é doce a minha vida! Tenho o sol e tenho a névoa, Tenho a alma agradecida.”
ANDRADE, Mário de. Paulicéia Desvairada. São Paulo: Casa Mayença, 1922.
Na poesia modernista de Mário de Andrade, a aproximação entre “terra” e “névoa” produz uma correspondência vocálica sutil. As palavras não se igualam quanto às consoantes, mas encontram certa unidade na sonoridade das vogais tônicas. Esse procedimento suaviza a transição entre as imagens e contribui para a musicalidade espontânea do trecho.
Os exemplos mostram que a rima toante pode atuar justamente onde a rima consoante talvez produzisse uma coincidência sonora mais evidente. Sua força está na sutileza. Ela não obriga o leitor a perceber imediatamente a correspondência; antes, permite que o ouvido descubra, pouco a pouco, um vínculo entre as palavras.
Para desenvolver a percepção da rima toante, comece escrevendo uma estrofe sem se preocupar inicialmente com a rima.
Deixe que as ideias encontrem seu próprio caminho. Depois, durante a revisão, observe as palavras que ocupam a posição final dos versos e identifique suas sílabas tônicas.
Em seguida, procure palavras que apresentem a mesma vogal tônica, ainda que suas consoantes sejam diferentes.
O objetivo não é forçar a escolha de determinada palavra, mas perceber as possibilidades sonoras que a própria língua oferece.
Esse exercício amplia a percepção auditiva do escritor e mostra que a poesia pode nascer tanto da escolha consciente quanto da escuta atenta.
O poeta não trabalha apenas com aquilo que as palavras significam, mas também com aquilo que elas fazem ouvir.
A técnica, portanto, não existe para aprisionar a criatividade, mas para dar forma àquilo que deseja nascer por meio dela.
O ritmo deve servir ao sentido; a métrica deve servir à expressão; a rima deve servir à música; e a revisão deve servir à clareza.
Também é importante permitir que o texto descanse. A pausa e o engavetamento, entendidos como o ato de guardar o texto por algum tempo para que ele amadureça, podem revelar soluções que não estavam visíveis no primeiro momento.
Às vezes, a palavra certa não precisa ser buscada com pressa; precisa apenas de tempo para encontrar o seu lugar.
Escrever é uma prática consciente que reúne disciplina, contemplação, sensibilidade e verdade. É também uma forma de escutar a língua.
Quando o escritor aprende a ouvir suas vogais, seus ritmos, suas pausas e suas ressonâncias, começa a perceber que a musicalidade não está somente na rima perfeita. Ela também pode habitar a delicadeza de uma aproximação.
Experimente, portanto, reservar um momento do estudo diário para criar pequenas quadras utilizando exclusivamente rimas toantes.
Ao limitar sua busca sonora às vogais tônicas, você perceberá como o vocabulário se torna mais flexível e como a mensagem pode adquirir maior espontaneidade.
Com a prática, a técnica deixará de parecer uma regra exterior e passará a fazer parte da própria sensibilidade de sua escrita. A rima não estará ali apenas para fechar o verso, mas para fazê-lo respirar.
Que a sua poesia seja sempre um refúgio de beleza, ritmo e acolhimento.
Referências Bibliográficas
ANDRADE, Mário de. Paulicéia Desvairada. São Paulo: Casa Mayença, 1922.
MEIRELES, Cecília. Romanceiro da Inconfidência. Rio de Janeiro: Livraria de José Olympio Editora, 1953.
MELO NETO, João Cabral de. Morte e Vida Severina. In: Duas Águas. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1956.