Deus escreve certo por linhas em reverso.
Adão conheceu Eva, e gerou...
Abraão conheceu Sara, e gerou...
Jacó conheceu Raquel, e gerou...
Entre marido e mulher, “conhecer”, para os judeus, é o relacionamento íntimo, o prazer, o clímax. O marido conhece a esposa e a esposa conhece o marido.
Entre amigos, “conhecer”, para os judeus, é um saber profundo, uma amizade profunda e uma relação de mútua intimidade, na qual ambos se conhecem.
Explorando esse sentido da palavra “conheceu”, é possível compreender os versículos de Romanos 8:29-30, que afirmam:
Porque aqueles a quem Deus previamente os conheceu, também os predestinou para terem a mesma forma e imagem de seu Filho, a fim de que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.
Deus conheceu o homem e o que há de mais íntimo em seu coração. Conheceu o seu deitar e o seu levantar. Antes que as palavras saíssem de sua boca, Ele as conheceu no coração. [1] E em um certo momento da caminhada do homem na Terra, Deus e o homem se conheceram com intensa intimidade e ambos se alegraram na amizade que fizeram.
O homem teve muita alegria na presença de Deus,
e Deus teve muita alegria na presença do homem.
Então, Deus o predestinou para que esse homem, agora conhecido, tivesse a mesma forma e imagem de seu Filho Jesus, porque a perfeita religião é a união da alma com Deus e a formação de Cristo em nós. [2]
Esse homem foi predestinado primariamente a uma Pessoa, e não a um lugar. O lugar é secundário;
o primário é ser semelhante a Cristo Jesus, o Filho do Deus vivo.
E tendo-o previamente destinado, o chamou. Chamou para negar a si mesmo, para esvaziar-se de si, para fazer morrer o ego, porque quando Deus chama alguém, Ele o chama para morrer. [3] “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só, mas, se morrer, produz muito fruto”. [4]
Esse homem, que aceitou voluntariamente esse chamado, foi justificado por Deus, sendo completamente coberto com o sangue de Cristo Jesus. Esse homem, agora consciente de sua justificação pelo sangue de Cristo Jesus, passou a atuar na Terra como justiça de Deus manifestada entre os homens, uma justiça muito superior à dos escribas e fariseus, mais preocupada com a pureza interior do que com a aparência exterior. Um novo homem, mais capacitado pelo Espírito Santo a praticar o bem e a desprezar o mal. [5]
Esse homem foi fiel a ponto de morrer por Cristo Jesus. Ao término de sua jornada na Terra, foi acolhido no Céu e desfrutou do repouso e da majestosa presença do Senhor. Contudo, o momento exato e supremo de sua glorificação esteve reservado para um belo e último dia. [6]
Na consumação da esperança, ao soar da trombeta, o toque celestial que convocou a Noiva de Cristo para a festa eterna no céu, a redenção alcançou a totalidade do seu ser: o que era corruptível revestiu-se de incorruptibilidade, e o mortal revestiu-se de imortalidade, recebendo um corpo de glória.
Deus deu-lhe vestes brancas e um novo nome em uma pedra branca; deu-lhe também o direito de comer da árvore da vida. Tendo-o plenamente glorificado em corpo, alma e espírito, então Deus e o homem se conheceram face a face. [7]
Tudo o que relatei aqui para você, foi uma manifestação histórica de algo que já aconteceu na eternidade, mas que se desdobra para nós em tempo cronológico. Porque, Deus compreende o tempo e a existência como um único e eterno agora. Foi nessa eternidade que Deus de previamente conheceu o homem, previamente o destinou, chamou, justificou, glorificou e conheceu face a face.
Para compreendermos melhor o trecho bíblico de Romanos 8:29-30, devemos imaginar que, do nosso ponto de vista, Deus não está falando do passado para o presente, mas sim do futuro para o presente. Deus está fazendo uma síntese, um resumo de tudo o que, para Ele, já aconteceu, mas que, para o homem, ainda está por acontecer.
“Para o homem, o passado é história e o futuro é mistério.” [8] “Para o Inventor do tempo, até o futuro já é história." [9] O Criador criou o tempo e
a existência. Poderia a criatura ser maior que o Criador?
O Inventor do tempo pode conjugar os verbos sempre no pretérito perfeito, indicando que toda ação verbal aconteceu em um determinado momento do passado, tendo o seu início e o seu fim no passado, pois Ele tem o poder de transitar no tempo e habitar o futuro. Por isso, Deus pode dizer: conheceu, predestinou, chamou, justificou, glorificou, conheceu face a face. [10]
O Inventor do tempo não sabe apenas o que acontece até o Apocalipse. O Alfa e Ômega, [11] Princípio e Fim, Primeiro e Último, sabe o infinito além do Apocalipse, só não está revelado.
A presciência e a preordenação de Deus não anulam o livre-arbítrio humano. A narrativa de Deus não consiste em uma observação passiva de um mero espectador diante dos fatos, mas em um profundo relacionamento de amor e escolha. Da mesma forma, o seu propósito soberano não exerce força arbitrária sobre as nossas liberdades, mas, antes, as garante e assegura. Deus jamais forçaria alguém a amá-lo.
Se alguém escolhe rejeitá-lo, Ele permite isso, reconhecendo que o amor forçado não é amor.
Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em corações humanos o que o Inventor do tempo já preparou para todos aqueles que o amam. [12]
E a vida eterna é esta: conhecer o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Conheçamos e prossigamos em conhecer o Criador. [13] Amemos e prossigamos em amar o Criador.
Referências
[1] Salmos 139:1-4
[2] Orlando Boyer. Heróis da Fé. Vinte homens extraordinários que incendiaram o mundo. Rio de Janeiro. CPAD. 2020.
[3] Dietrich Bonhoeffer. Discipulado. São Paulo: Mundo Cristão. 2016.
[4] João 12:24
[5] Lucas 9:23-34 | 2 Coríntios 5:21 | 1 Coríntios 1:30. Mateus 5:20.
[6] João 6:39, 40, 44, 54.
[7] Apocalipse 2:10 | 2 Timóteo 4:8. | 1 Coríntios 13:12 | Salmos 11:7.
[8] Provérbio Chinês.
[9] Deus.
[10] Deus
[11] Apocalipse 22:13.
[12] 1 Coríntios 2:9 (paráfrase).
[13] João 17:3 | Oséias 6:3.