A medida do amor é amar sem medida.
Agostinho de Hipona.
— Deus meu, Deus meu, por que me desamparastes? Por que estás afastado de me auxiliar e das palavras do meu bramido? Por que não me respondes? Por que te calas? [1] Eu tive fome e deram-me fel por mantimento, e, na minha sede, deram-me vinagre a beber.[2]
Cães me rodeiam; fortes touros me cercaram; repartiram entre si as minhas vestes; podem contar todos os meus ossos; o meu coração derreteu-se como cera.[3] Contudo, minha maior dor é o Teu silêncio, e a Tua voz é minha única esperança de consolo.[4]
E naquele momento, no meio de uma grande multidão, enquanto todos condenavam o Salvador, Deus encontrou um coração autêntico, uma língua capaz de dizer a verdade, e dela, com voz baixa, falou:
— Meu Cordeiro, Tu és inocente. [5]
Pois a verdade é que Deus fala, ora de um modo, ora de outro, mesmo que o homem não perceba. [6] Então, o Cordeiro bradou...
— O meu sangue é minha verdade: salvação e consolo para as ovelhas, mas aflição e condenação para as serpentes.
Após dizer essas palavras, expirou.
Fim.
Comentário
No meio cristão em que vivo, ouço alguns dizendo que acham injusto o fato de um dos ladrões da cruz se salvar na última hora de vida, pois alegam que viver a vida inteira no Evangelho é muito difícil, e precisam renunciar a muitas coisas para então continuarem na caminhada cristã.
Ouço também um outro grupo de cristãos dizer que se sentem aliviados pelo fato de um dos ladrões da cruz ter sido salvo na última hora. Esses cristãos argumentam que se um dos ladrões foi salvo na última hora, a salvação não deve ser algo tão difícil assim, e basta que você apenas peça perdão por seus pecados quando estiver morrendo, que será salvo.
Entretanto, ao que parece, poucos percebem que no Calvário não se trata apenas de um diálogo entre dois ladrões a respeito de Jesus. Trata-se de uma multidão alvoroçada, furiosa e blasfemadora condenando injustamente a Jesus, um homem inocente. Um dos ladrões apenas acompanha o discurso da multidão e provoca a Jesus, dizendo-lhe:
— Se Tu és o Cristo, salva-te a Ti mesmo e a nós.
É nesse contexto turbulento, tendencioso e partidário que o outro ladrão reconhece a culpa de seus pecados e a inocência do Cordeiro. Esse ladrão que se declarou culpado fez o papel de um profeta. Ele teve a coragem de propor um argumento contrário ao de uma multidão, proferindo palavras de consolo a Jesus.
Enquanto todos diziam em alto e bom som:
— Culpado!
O profeta disse:
— Inocente!
Refências
[1] Salmos 22:1 | Mateus 27:46 | Marcos 15:34.
[2] Salmos 69:21 | Mateus 27:34 | Marcos 15:36.
[3] Salmos 22:12-18 | Lucas 21:20 | Mateus 27:35.
[4] Salmos 119:49-50
[5] Lucas 23:39-41.
[6] Jó 33:14. Nova | Hebreus 1:1 | Gênesis 46:2-4 | Números 12:6-9.