Toda tradução é uma interpretação.
Thiago Silva
Vejo alguns irmãos católicos criticando Martinho Lutero por causa da Reforma Protestante, mas devemos admitir que é também graças a ele que hoje não se ouve mais pregar nas igrejas católicas que há terrenos no Céu à venda.
Lutero resolveu convidar seus “amigos de farda” para ler na Bíblia que a salvação é pela graça, por meio da fé. A ideia era só fazer um debate. Talvez, na mente inocente dele, ele cogitasse que todos ficariam felizes com sua descoberta. Entretanto, antes que o debate acontecesse, ele foi convidado a se retratar, caso contrário, a igreja se “divorciaria” dele.
E quando falamos dos tabus atuais, a Igreja age diferente? Claro que não! Basta falarmos do tabu “divórcio” que muito rápido alguém já diz: “Deus odeia o divórcio."
O Dr. Edson de Faria Francisco, linguista da área da Bíblia na Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), com pós-doutorado em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaicas pela Universidade de São Paulo (USP), escreveu o Antigo Testamento interlinear Hebraico-Português em quatro volumes, publicados pela Sociedade Bíblica Brasileira (SBB) (ano de publicação: 2017), totalizando cerca de 3224 páginas.
Comprei os quatro volumes publicados; posso dizer que eles são extraordinários e indispensáveis para consultar e estudar os versículos no hebraico bíblico, principalmente quando se trata de textos polêmicos. O Dr. Edson fez uma tradução muito próxima ao que chamamos de “tradução literal”.
Quanto a Malaquias 2:16, o que, no popular, entende-se como: “Deus odeia o divórcio”. No volume três, página 694, lê-se: “Deus odeia o despedir”.[1] A palavra específica para carta de divórcio no hebraico bíblico é “kerîtut”, e essa palavra não é mencionada nesse versículo nem em todo o decorrer do livro de Malaquias, mas em Malaquias 2:15-16 aparecem as palavras “sallah” e “yiḇgōḏ”.
Sallah - despedir; deixar ir; liberar; mandar embora. [2]
Yiḇgōḏ - vem da raiz verbal “bāgaḏ” (בגד) que significa: traição; tratar deslealmente; lidar traiçoeiramente; cometer infidelidade; fraude.[3]
A raiz verbal presente na palavra “bāgaḏ” aparece com pequenas variações em cinco trechos do capítulo 2 de Malaquias, confira: Ml 2:10 “niḇgaḏ”; Ml 2:11 “bāḡəḏāh”; Ml 2:14 “bāḡaḏtāh”; Ml 2:15 “yiḇgōḏ” e Ml 2:16 “ṯiḇgōḏū”.
Todas essas cinco palavras possuem a mesma raiz verbal “bāgaḏ” e todas essas palavras possuem significados semelhantes a “deslealdade/traição”. Ou seja, levando em consideração todo o contexto, especialmente o capítulo 2, Malaquias aponta para algo muito mais grave do que uma carta de divórcio, transparecendo claramente uma atitude de deslealdade cruel, traiçoeira e violenta do homem com a sua esposa.
Dessa forma, compreendo que uma tradução um pouco mais explicativa para Malaquias 2:16 seja: “Deus odeia o despedir desleal” ou “Deus odeia o despedir traiçoeiro”. Uma ação equivalente ao repúdio/abandono.[4]
No contexto do livro de Malaquias até a época de Cristo, bem como em vários outros momentos do Antigo Testamento, a poligamia era permitida entre os judeus e era símbolo de poder e status social para o homem ter mais de uma mulher ao mesmo tempo, pois a mulher era vista como uma propriedade do homem, um bem adquirido.[5] E nesse sentido, uma mulher a menos poderia não fazer muita falta ao homem, mas para a mulher abandonada significava perder tudo.
Um dos principais objetivos deste livro é o de desvelar o caminho da salvação da alma do leitor. Por isso, fez-se necessário escrever sobre o divórcio, uma vez que muitos cristãos acreditam que sempre é pecado se divorciar e que somente o cônjuge que foi traído tem o direito de se divorciar e se casar novamente. Muitos cristãos também acreditam que o cônjuge que cometeu o adultério estará em adultério ao se casar com outra pessoa. Temos aqui, portanto, um grande tabu envolvendo igrejas cristãs, católicas e evangélicas.
É pecado se divorciar? Os muitos pecados podem levar uma pessoa a se divorciar; no entanto, o divórcio em si nem sempre é um pecado que envolve igualmente as duas partes.
A carta de divórcio em si é um recurso legal que foi concedido por Deus para evitar abusos e buscar a justiça, o equilíbrio e a preservação da vida. Por essa razão, se toda vez que acontecer um divórcio for considerado um ato ilegal e pecaminoso envolvendo igualmente as duas partes, então, Deus teria cometido pecado ao dar carta de divórcio a Israel, em Jeremias 3:8.
Quando, por causa de tudo isso, por ter ela cometido adultério, eu despedi a rebelde Israel e lhe dei carta de divórcio, vi que a irmã dela, a traiçoeira Judá, não ficou com medo, mas também ela foi e se entregou à prostituição (Jeremias 3:8 Nova Almeida Atualizada).
A relação de Deus com Israel é comparada à relação do marido com a esposa. O adultério de Israel referido nesse versículo é devido à adoração de Israel a outros deuses. Deus exige fidelidade. A infidelidade na adoração a Ele sempre foi e sempre será considerada um adultério espiritual, e isso também vale para a Igreja atual.
Se você ficar preso nesse versículo de Jeremias 3:8, você pode acreditar que o único motivo para Deus romper a relação com Israel seja a adoração a outros deuses. Entretanto, se você analisar 2 Crônicas 15:1-2, sua perspectiva será ampliada.
Então, o Espírito de Deus veio sobre Azarias (o profeta), filho de Odede, e ele foi ao encontro do rei Asa. “Ouça-me, Asa!”, disse ele. “Ouça-me, todo povo de Judá e de Benjamim! O Senhor estará com vocês enquanto estiverem com ele! Sempre que o buscarem, o encontrarão. Mas, se o abandonarem, ele os abandonará.” [6]
Em 2 Crônicas 15:1-2, Deus não especifica o motivo do abandono. E analisando a Bíblia como um todo, percebemos que o homem pode romper o relacionamento com Deus por inúmeras razões. Dentre esses principais motivos estão: o dinheiro; o poder; os desejos carnais; a busca pelos próprios interesses; a vaidade; o orgulho; a ganância etc. Contudo, o cerne da questão referente ao abandono ou à busca por Deus se resume a dois motivos, são eles: “eu quero” ou “eu não quero”.
Olhando para trás, da perspectiva do século XXI, vemos o judaísmo como a mais conservadora entre todas as religiões do mundo quando se trata de leis morais e éticas que visam uma vida santa diante de Deus.[7]
Entretanto, no que se refere à relação entre marido e esposa, no judaísmo nunca se acreditou na perda da salvação por causa de um divórcio e um novo casamento, mesmo quando não há adultério envolvendo a separação do casal. Nesse aspecto, algumas expressões do cristianismo atual, em muitos lugares, têm se mostrado mais conservadoras que o judaísmo ortodoxo.
O divórcio entre os judeus, na época de Jesus, não era ilegal ou proibido; até hoje, entre judeus, não é. Porém, o divórcio na visão do homem era considerado terrivelmente caro, uma vez que, em geral, o homem pagava um dote para tirar uma mulher da casa de seu pai e casar-se com ela, e pela lei, o homem que desse carta de divórcio a uma mulher deveria conceder uma indenização prescrita no contrato de casamento. Além disso, o marido tinha que acrescentar a essa quantia o valor de quaisquer bens perecíveis que a esposa tivesse trazido ao casamento. A mulher judia não tinha direito de dar carta de divórcio ao homem. Esse era um direito apenas para homens. De modo geral, o marido era considerado o senhor, o dono da esposa.[8]
O homem, ao divorciar-se de uma mulher, deveria dar carta de divórcio e repudiar a mulher. Esse repudiar está no sentido de mandar embora, expulsar, abandonar, deixar, despedir. A carta de divórcio dava à mulher o direito a um novo casamento legalizado. Mas, sem a carta de divórcio, a mulher ficava ligada ao antigo marido, e isso a impedia de firmar um novo casamento, pois, caso o antigo marido, aquele que a repudiou, desejasse possuí-la novamente, ele tinha direitos sobre ela. A mulher, ao ser repudiada, sem a carta de divórcio, ficava muito vulnerável na sociedade, chegando a viver em condições degradantes e de difícil sobrevivência, abandonada à própria sorte.[9]
Curiosamente, um artigo recente do jornal Jerusalem Post, de 10 de fevereiro de 1990, censurava o fato de que “milhares de mulheres estavam aprisionadas devido aos abusos de Halakah[10] e falhas nas cortes rabínicas que têm a jurisdição sobre o casamento e o divórcio”. De acordo com o artigo, assinado por Peth Uval, entre 8 e 10 mil mulheres israelitas estão aprisionadas e não podem se casar novamente porque seus maridos recusam-se a lhes conceder o divórcio.[11]
Quando olhamos com atenção para as perguntas dos fariseus a Jesus, percebemos que essas perguntas nunca eram sobre dúvidas genuínas, autênticas e verdadeiras a respeito da Lei de Moisés ou dúvidas sobre as Escrituras. Os fariseus acreditavam que eram exímios conhecedores das leis e especialistas na interpretação das Escrituras Sagradas. Por isso, toda vez que os fariseus se aproximavam de Jesus com uma pergunta, era sempre uma pergunta com intenções maliciosas para, no mínimo, minar e diminuir a popularidade de Jesus.
Uma das traduções que gerou vício de interpretação a respeito do divórcio encontra-se em Mateus 19:3. A tradução incorreta é:
Alguns fariseus se aproximaram de Jesus, e perguntaram, para o tentar: “É permitido ao homem divorciar-se de sua mulher por qualquer motivo?”[12]
A palavra equivalente a divórcio no grego é “apostasion”, e essa não aparece aqui nesse versículo, mas sim a palavra “apolysai”, que vem do substantivo “apoluo”, que é equivalente à palavra “repúdio”. Sendo assim, a tradução correta para Mateus 19:3 é:
Então chegaram ao pé d’Ele os fariseus, tentando-o e dizendo-lhe: “É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?”[13]
Compreendo que a palavra “repúdio” soa um pouco erudita, por isso, confira também a seguir esse mesmo versículo de Mateus 19:3 em uma versão com uma linguagem atualizada e mais popular:
Alguns fariseus chegaram perto d’Ele e, querendo conseguir alguma prova contra ele, perguntaram: “Será que pela nossa Lei um homem pode, por qualquer motivo, mandar a sua esposa embora?”[14]
A essência do questionamento dos fariseus a Jesus, em Mateus 19:3-12, não se trata de carta de divórcio, porque isso já era previsto pela lei, conforme Deuteronômio 24:1-4. A pergunta dos fariseus a Jesus, em Mateus 19:3, era se Jesus concordava com o repúdio. Os fariseus sabiam que essa era uma prática errada, mas comum entre muitos homens judeus. Ou seja, os fariseus, mestres na intriga, mais uma vez, estavam testando Jesus. Eles queriam ver se Jesus teria coragem de ir contra uma coisa errada que era praticada na época, denunciando o erro, ou se Jesus seria negligente, ignorando a injustiça social. Jesus, em sua resposta, desaprova o repúdio, porém abre uma exceção. A exceção era se a mulher fosse pega em relações sexuais ilícitas (porneia).
Eu, porém, lhes digo: Quem repudiar a sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar-se com outra comete adultério. E o que casar-se com a repudiada também comete adultério.[15]
Se olharmos para esse texto de Mateus 19:9, com as lentes de uma pessoa ocidental, acostumada com um mundo onde a sexualidade tem se tornado algo cada vez mais banal e que a imoralidade sexual é incentivada diariamente pelas mídias sociais, teremos sim a ideia de que só em caso de adultério o divórcio deve ser permitido. Porém, para o homem da época de Jesus, a sentença de Cristo soa como algo absurdo, pois adultério não é apenas um pecado banal, mas crime previsto com pena de morte por apedrejamento, conforme Levítico 20:10:
Se um homem cometer adultério com mulher casada, isto é, se cometer adultério com a mulher do seu próximo, certamente serão mortos o adúltero e a adúltera.[16]
Podemos observar a mesma mentalidade de Levítico 20:10 em João 8:2-6:
E pela manhã cedo tornou para o templo, e todo o povo vinha ter com ele, e, assentando-se, os ensinava. E os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério; e, pondo-a no meio, disseram-lhe: “Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando, e na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes”? Isso diziam eles, tentando-o, para que tivessem de que o acusar.[17]
É uma armadilha: se Jesus se associa à condenação, ele contradiz o Deus da misericórdia e do perdão que constitui o aspecto mais subversivo de seu ensinamento. Mas, caso se recuse a condenar, ele se opõe a Moisés, a autoridade suprema. Jesus poderia argumentar como já sabem fazê-lo os rabinos da época, prefigurando as controvérsias talmúdicas: Ele não ignora que existem múltiplas formas de interpretar a Lei, que equivalem de fato a controlá-la, especialmente quando se trata de uma condenação à morte. Mas sua resposta será outra, para mostrar que o sentido da Lei é abertura para a vida e não o fechamento para a morte. Após ter permanecido em silêncio, Ele os remete à sua própria condição de pecadores: “Aquele dentre vós que nunca pecou atire-lhe a primeira pedra”. E, diante do profeta que soube iluminar a Torá com uma abertura profética, eles vão embora, vencidos.[18]
Em Levítico 20:10, tanto o adúltero quanto a adúltera deveriam ser apedrejados, porém em João 8:3-6, os escribas e fariseus só trouxeram a mulher que fora pega em adultério, e não trouxeram o homem que estava com ela. Isso demonstra a parcialidade e o favoritismo que pesavam em favor dos homens.
A definição de adultério para a mulher não era a mesma que para o homem. Toda mulher infiel deveria ser considerada adúltera, diz Eclesiástico, porque ela quebra a lei do Altíssimo, é falsa para com o marido, dando-lhe como herdeiro um filho que não é seu, e se contamina.[19] Os interesses da família exigiam a mais severa punição do adultério da mulher; mas a fidelidade do marido, por outro lado, não era tão enfatizada, desde que a sua má conduta não tivesse efeito sobre a família. O adultério masculino só era crime se ele seduzisse uma mulher que estivesse noiva ou fosse casada, porque então estaria prejudicando a família de outrem.
A mulher suspeita de adultério deveria passar pela mesma prova da água amarga aplicada às noivas. Ela é descrita minuciosamente no livro de Números 5:11-31; tinha de beber uma mistura horrível, cujo principal ingrediente era pó do chão do templo, e se vomitasse ou se sentisse mal, sua culpa seria tida como certa. Se fosse apanhada em flagrante, seria condenada à morte. Eles a arrastavam “pela gola do vestido” diante do povo e a matavam. [...] Mais tarde, a morte por estrangulamento foi introduzida para as adúlteras no sentido exato da palavra.[20]
Ainda sobre o adultério, observemos Mateus 5:27-28, quando Jesus declara:
Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo que todo aquele que olhar para uma mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela.[21]
Essa declaração de Jesus é impactante para a mentalidade da época, pois, se é considerado adultério só o olhar para uma mulher e cobiçá-la, isso implica dizer que, se um homem olha e cobiça, ele comete crime de adultério, sendo assim, torna-se digno de ser apedrejado conforme os padrões previstos em Levítico 20:10.
Esta mesma declaração de Jesus em Mateus 5:27-28, aplicada aos dias atuais, é capaz de desmontar a compreensão de que só mediante o adultério que o divórcio é autorizado pela Bíblia, pois se a autorização para se divorciar de alguém é o adultério, basta então que o cônjuge olhe para outra pessoa com a intenção de cobiçá-la sexualmente, e, assim, ele já terá adulterado. Logo, o cônjuge já está autorizado a se divorciar e ter um novo casamento. Embora o mandamento contra a cobiça entre num âmbito no qual o legalismo nada pode fazer, para Cristo, assim como todo aquele que odeia seu irmão é assassino, o que olha e cobiça a mulher do próximo é adúltero.[22]
Outra passagem muito interessante de analisarmos a diferença entre divórcio e repúdio (apostasion & apolysai) encontra-se em Mateus 1:18-19, observe a seguir:
A origem de Jesus, o Messias, foi assim: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José, e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo. José, seu marido, era justo. Não queria denunciar Maria, e pensava em deixá-la, sem ninguém saber.[23]
A palavra aqui traduzida, em muitas versões bíblicas como “deixá-la” é “apolysai”, que significa “repudiar”. A mesma que aparece em Mateus 19:3 e em várias outras passagens que tratam desse assunto. Seria correto também traduzir a expressão “deixá-la” como “repudiá-la”, ou “abandoná-la”. José planejou “repudiar” Maria secretamente, pois o adultério no noivado também era um crime previsto com pena de morte por apedrejamento.[24]
Enquanto José refletia sobre a gravidez de Maria, eis que lhe apareceu em sonho um anjo do Senhor, dizendo-lhe: “José, filho de Davi, não tenha medo de receber Maria como esposa, porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e você porá n’Ele o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles”. [...] Quando José despertou do sono, fez como o anjo do Senhor lhe havia ordenado e recebeu Maria por esposa. Porém, não teve relações com ela enquanto ela não deu à luz um filho, a quem pôs o nome de Jesus.[25]
Observe a seguir um conselho de Paulo, apóstolo, aos irmãos de Corinto, referente ao casamento:
Digo eu mesmo, não o Senhor: Se um homem cristão é casado com uma mulher que não é cristã e ela concorda em continuar vivendo com ele, que ele não se divorcie dela. E, se uma mulher cristã é casada com um homem que não é cristão, e ele concorda em continuar vivendo com ela, que ela não se divorcie dele. Pois Deus aceita o homem que não é cristão por ele estar unido com a sua esposa cristã; e aceita a mulher que não é cristã por ela estar unida com seu marido cristão. Se não fosse assim, os filhos deles não pertenceriam a Deus. Mas, sendo assim, eles pertencem. Porém, se o marido não cristão ou a esposa não cristã quiser o divórcio, então que se divorcie. Nesses casos, o marido cristão ou a esposa cristã está livre para fazer como quiser, pois Deus chamou vocês para viverem em paz.[26]
Paulo está aconselhando seus leitores que o cônjuge cristão deve se empenhar ao máximo para manter o casamento, na esperança de que o cônjuge não cristão se converta à fé cristã. Porém, Paulo não priva os cristãos de se divorciarem. E quanto à expressão: “Está livre para fazer o que quiser”, entende-se: divorciar-se e ficar solteiro ou divorciar-se e casar-se novamente, pois Deus chamou vocês para viverem em paz. O princípio do amor não é aprisionar e exigir reciprocidade, o amor é livre, o amor é paz.
A Bíblia pode ser entendida como uma Constituição, uma Carta Magna, um conjunto de leis, éticas e morais que visam uma vida justa e santa. Todavia, a Bíblia não dá conta de abranger todos os assuntos que envolvem a vida de uma família. De modo geral, compreendo que aqueles que não cuidam dos seus, especialmente dos de sua própria família, negam a fé e são piores que os descrentes.[27]
O divórcio, atualmente, pode ser algo trágico e traumático para quem precisa enfrentá-lo, como perder um membro da família e ter que sepultar, antes do previsto, uma parte de sua história. O período de luto e recuperação após um divórcio pode ser longo, parecendo interminável. O preconceito contra os descasados é nítido e constante dentro de muitas igrejas cristãs e isso dificultará ainda mais a vida de um cristão que precisou se separar. Mas, por fim, como lemos na história da mulher samaritana, que havia se divorciado cinco vezes, e vendo Jesus oferecer a ela água da vida eterna, que simboliza a vida eterna, sem colocar em pauta os motivos que a levaram aos divórcios, percebemos que a quantidade de divórcios e casamentos legalizados nunca foi e nunca será impedimento para o acesso à salvação.
O desejo de Deus é que o homem e a mulher se casem uma só vez, porém, muito acima do casamento está a preservação de uma vida.
Referências
[1] (ANTIGO TESTAMENTO, 2017).
[2] (HOLLADAY, 2010, págs. 528-529).
[3] (HOLLADAY, 2010, pág. 44).
[4] (A raiz verbal “bāgaḏ” também é mencionada com o mesmo significado de deslealdade/traição nas passagens bíblicas a seguir: Êxodo 21:8; Jeremias 3:20; 1 Samuel 14:33; Isaías 24:16).
[5] (BIGNON, 2016).
[6] (2 Crônicas 15:1-2. Nova Versão Transformadora, 2018, p. 720).
[7] (BIGNON, 2016).
[8] (RICHARDS, 2022).
[9] (OLIVEIRA, 2020).
[10] Halakah: Sistema legal de leis do judaísmo.
[11] (RICHARDS, 2022, p. 64).
[12] (Edição Pastoral).
[13] (Almeida Corrigida Fiel).
[14] (Mateus 19:3 Nova Tradução Linguagem de Hoje).
[15] (Mateus 19:9 Nova Almeida Atualizada).
[16] (Levítico 20:10 Sociedade Bíblica Britânica).
[17] (João 8:2-6 Almeida Corrigida Fiel).
[18] (JESUS: a enciclopédia, 2020, p. 376-377).
[19] (Eclesiástico 23:22-23).
[20] (DANIEL-ROPS, 2008, p. 153).
[21] (Mateus 5:27-28 Almeida Revisada Imprensa Bíblica).
[22] (1 João 3:15; Mateus 5:27-28).
[23] (Mateus 1:18-19. Edição Pastoral).
[24] (Deuteronômio 22:23-29).
[25] (Mateus 1:18-25. Nova Almeida Atualizada).
[26] (1 Coríntios 7: 12-15. Nova Tradução Linguagem de Hoje, 2012, p. 1389. grifo meu.)
[27] 1 Timóteo 5:8 (Nova Versão Transformadora)
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