E disse Deus:
— Mulher, eu sei que você se divorciou cinco vezes e que agora tem um amante. Você procura em homens o que se acha apenas em mim.
Sei que você foge das pessoas pelo medo de ouvir as palavras que saem nos lábios delas.
Mas se hoje você ouvir a palavra que tenho a lhe falar, nunca mais terá medo de outras palavras.
Respondeu a mulher:
— Senhor, então me fale, para que nunca mais eu fique escrava do que ouço a meu respeito.
E disse Deus:
— Mulher, eu te amo.
Fim.
Nota ao leitor: Esse texto que você acabou de ler é uma paráfrase de João 4:1-30, "A mulher samaritana e Jesus". Essa paráfrase me foi dada por Deus.
Eu Sou, o que fala contigo.
Messias
Em João 3:1-2, Nicodemos, fariseu, líder religioso e príncipe dos judeus, marcou um encontro com Jesus em um período noturno, às escondidas, possivelmente para não correr o risco de ser visto pelos demais na companhia de Jesus, pois, naquele momento, a mensagem proclamada por Jesus já começava a representar uma ameaça aos interesses dos fariseus. [1]
Jesus, por sua vez, foi encontrar-se com a mulher samaritana por volta do meio-dia, às claras, sol escaldante, local histórico: poço de Jacó. Jesus assentou-se junto ao poço. Veio a mulher samaritana tirar água.
Jesus lhe pediu: “Mulher, dá-me de beber.” Replicou-lhe a mulher samaritana: “Como sendo tu, que és judeu, pedes de beber a mim, sendo eu do povo samaritano?”[2]
Aqui, nessa simples réplica da mulher samaritana, não se trata apenas de uma pergunta devido ao distanciamento entre judeus e samaritanos, mas revela também uma mulher questionadora. No costume da época, uma mulher submissa, nessa ocasião, pegaria a água sem questionar.
Em Gênesis 24:14, já é possível perceber essa expectativa de mentalidade quando o servo de Abraão sai à procura de uma esposa para Isaque. E assim disse o servo: “Aquela a quem eu pedir água do poço, e ela der de beber a mim e a meus camelos, essa será a esposa de Isaque.” Ou seja, submissa e proativa.
No trecho bíblico de João 4, percebe-se uma mulher muito questionadora para o seu tempo. Naquela época, o divórcio era algo muito comum, e esse comportamento certamente justificaria, aos olhos da sociedade, o motivo pelo qual seus maridos lhe concediam carta de divórcio.
Observe a seguir cinco versículos de “Eclesiástico”, livro deuterocanônico escrito por Jesus Ben Sirac entre 190 e 180 a.C., que buscava, em resumo, preservar a identidade e salvaguardar a fé e a vocação de Israel, bem como reavivar a memória e a consciência histórica do seu povo, a fim de mostrar o valor perene de suas tradições.[3]
Não deixe a água escapar, nem dê liberdade de falar para a mulher má. Se ela não andar conforme seus acenos, separe-se dela.[4]
Mulher amiga do silêncio é dom do Senhor e nada é comparável à alma bem-educada.[5]
Qualquer maldade é nada diante da maldade da mulher: caia sobre ela a sorte dos pecadores.[6]
Nenhuma ferida é como a do coração, e maldade nenhuma é como a da mulher.[7]
É preferível a maldade do homem à bondade da mulher.[8]
Esse último versículo sugere que toda mulher é má quando comparada ao homem, e no decorrer de todo o livro de Eclesiástico, fica a sensação de que provavelmente uma mulher de fato bondosa seria uma coisa raríssima de se ver.
Citei esses três últimos versículos por causa da expressão “mulher má”, que é mencionada no primeiro. Se esses cinco versículos acima citados vieram da mente de um homem considerado sábio, imagina a tragédia que se passava nas mentes dos homens símplices, que são a maioria!?
Em 1 Coríntios 14:34-36, o apóstolo Paulo, possivelmente utilizando essa mesma “lente cultural”, orienta as mulheres a ficarem em silêncio durante o culto e a não fazerem perguntas, deixando-as para seus maridos (andras)[9] em casa.
Em João 4, Jesus permite que a mulher samaritana pergunte o que quiser, afinal, a verdade não tem medo de ser questionada. Ele conversa com ela respeitando-a como uma igual. Isso, naquela época, seria inadmissível pelos homens, quanto mais por um rabino. Voltemos ao diálogo entre Jesus e a mulher samaritana. Observe o trecho a seguir:
Em resposta, Jesus lhe disse: “Se conhecesses o dom de Deus e soubesses quem é aquele que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva.”
Disse-lhe a mulher: “Senhor, nem sequer um balde tens, e o poço é fundo. De onde podes, então, obter a água viva? Acaso és tu maior que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, e ele mesmo bebeu dele, e também dele beberam seus filhos e seus animais?”
Respondendo, disse-lhe Jesus: “Todo aquele que beber desta água, terá sede novamente, mas, quem beber da água que eu lhe der, nunca mais terá sede, pelo contrário, a água que eu lhe der virá a ser nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna.”
A mulher então lhe rogou: “Senhor, dá-me desta água, para que eu não tenha sede e não tenha que vir aqui tirar desta água.”
Disse-lhe Jesus: “Vai chamar o teu marido e vem cá.”
Respondeu-lhe a mulher: “Não tenho marido.”
Disse-lhe Jesus: “Falaste com sinceridade ao dizeres: ‘Não tenho marido’. De fato, tiveste cinco maridos, e o que tens agora não é teu marido. Disseste a verdade.” [10]
No que se refere à expressão “água viva”, citada em João 4:10, ao que parece, a maioria dos cristãos compreende facilmente que se trata de uma metáfora para se referir a uma oportunidade de “vida eterna” que foi concedida à samaritana. Entretanto, alguns afirmam que a expressão “cinco maridos”, utilizada por Jesus em João 10:18, está se referindo a cinco deuses que a samaritana adorava e não a cinco maridos.
Há também alguns cristãos que argumentam que os cinco maridos da samaritana não sejam por causa de cinco divórcios, mas sim por causa de cinco maridos que faleceram. Quanto a esse último argumento, eu me questiono: Por que Jesus confrontaria uma mulher que fora por cinco vezes viúva? Por que ela buscaria água ao meio-dia? Por que não pela manhã ou no fim da tarde, junto com as outras mulheres? Seria a vergonha de ser viúva por cinco vezes? Por que o isolamento social?
É verdade que examinando apenas os versículos de João 4:16-18, ninguém poderá provar historicamente de forma absoluta que foram de fato cinco divórcios, mas também ninguém poderá negar essa possibilidade.
Na série The Chosen (Os Escolhidos), na primeira temporada, no oitavo episódio,[11] a mulher samaritana foi apresentada como uma mulher que teve cinco maridos e que viveu com cada um deles em momentos diferentes de sua vida. Estou ciente de que uma série dramatiza os fatos para tornar a história mais interessante de assistir. Contudo, essa série, no geral, é fiel ao contexto histórico da época em vários aspectos ao retratar a realidade. Todavia, acredito que qualquer série, filme ou documentário que tenha compromisso com a realidade histórica, ao abordar a mulher samaritana, provavelmente seguirá a interpretação mais comum da passagem, segundo a qual ela teria se divorciado cinco vezes e, naquele momento, estaria vivendo um sexto relacionamento, considerado irregular.
Finalizando esta questão, afirmo que, entre os cinco maridos que a mulher samaritana teve, basta que tenha ocorrido um único divórcio sem que houvesse o adultério do seu marido, seguido de um novo casamento legalmente reconhecido, para que se levante um sério questionamento à teologia que defende a perda da salvação em decorrência de um único divórcio e de um novo casamento quando não há adultério envolvendo a separação. Afinal, se essa possibilidade estiver presente na própria narrativa, a conclusão teológica deixa de ser tão simples quanto muitos supõem.
No que diz respeito ao texto grego, a palavra que é utilizada em João 4:16-17, no grego original, para se referir a “marido” é a palavra “andra”. E em João 4:18 para “maridos” é “andras”. (a palavra “maridos” no grego aparece também como “andres”). É necessário dizer, obviamente, que não encontrei nenhuma Bíblia Sagrada traduzida em português que não tenha utilizado a palavra “marido” em João 4:16-17 e “maridos” em João 4:18. (Tendo pesquisado cerca de vinte versões bíblicas).
Vejamos a seguir três versículos da Bíblia Sagrada nos quais a palavra grega aparece também significando “marido” e “maridos”:
Entretanto, cada um de vós individualmente também ame a própria esposa como a si mesmo, e a esposa respeite o marido (andra) (Efésios 5:33).[12]
Alegra-te, estéril, que não dás à luz; irrompe e grita, tu que não tem dores de parto; porque muitos são os filhos da desolada, mais do que os filhos da mulher que tem marido (andra) (Gálatas 4:27).[13]
Maridos (andres), convivei cada um com sua mulher, sabendo que ela é o vaso mais frágil, e tratai-a honrosamente, como coerdeira convosco da graça da vida. E assim as vossas orações não serão interrompidas
(1 Pedro 3:7).[14]
Diante do exposto, considero insustentável a interpretação de que, em João 4:16-18, as palavras "andra" e "andras" estejam se referindo a deuses.
Por que a samaritana seria herética e sincera ao mesmo tempo? Por que uma idólatra esperaria pela chegada do Messias, sendo essa uma promessa de Yahweh, o único Deus? Por que uma idólatra teria um dilema quanto ao local correto de adoração a Yahweh, sendo Ele um Deus que claramente exige exclusividade na adoração? Por que ela faria perguntas teológicas?
À medida que o contexto da narrativa bíblica é analisado, considero cada vez mais insustentável a interpretação de que se trata dos cinco maridos da mulher samaritana como sendo cinco deuses.
Voltemos ao texto:
Disse-lhe a mulher: “Senhor, vejo que és profeta. Nossos pais adoraram neste monte (Gerizim), e vós dizeis que em Jerusalém está o local onde é necessário adorar.”
Disse-lhe Jesus: “Mulher, creia em mim: Vem a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação provém dos judeus. Mas vem a hora, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em Espírito e em verdade. E de fato são esses os adoradores que o Pai procura. Deus é Espírito, e é necessário que aqueles que o adoram, o adorem em Espírito e em verdade.”
Disse-lhe a mulher: “Sei que o Messias, chamado Cristo, vem. Quando ele vier, nos esclarecerá tudo.”
Disse-lhe Jesus: “Eu sou, o que fala contigo.”
Nisso chegaram os seus discípulos e se espantaram ao ver que ele falava com uma mulher. Todavia, ninguém lhe perguntou: “Que buscas”? ou: “Que falas com ela?”
Então a mulher largou o seu jarro, foi para a cidade e disse aos homens: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que tenho feito. Não será este o Cristo?” Eles saíram da cidade e foram encontrar-se com ele.[15]
Até aquele momento, Jesus não tinha revelado publicamente, de forma verbal e explícita, que Ele era o Messias que havia de vir. Ele havia guardado essa informação por cerca de trinta anos, e quando Ele decidiu revelar ao mundo que era, de fato, o Messias, Ele o fez à mulher samaritana.
Coloque-se no lugar de Jesus e imagine-se guardando uma informação extremamente valiosa por cerca de trinta anos. Agora, eu lhe pergunto: a quem você contaria essa informação?
Certamente, você a confiaria a alguém que lhe desse grande valor. E percebo que foi exatamente isso que Jesus fez. Considero coerente concluir que Jesus se revelou à mulher samaritana porque encontrou nela um coração sincero e disposto a adorar a Deus, além de uma profunda expectativa pela chegada do Messias.
Ao dizer as palavras "Eu Sou", do grego "Ego Eimi", certamente, Ele está invocando o Eu Sou do Êxodo 3:14, quando Yahweh se revela a Moisés.
Mas permito-me ir além. Para mim, é também como se Ele estivesse dizendo: "Eu sou a fonte que você tanto procura e estou bem aqui, diante de você; venha e beba, não tenha medo. O meu Pai procura por verdadeiros adoradores que o adorem em Espírito e em verdade, e Ele está à sua procura; enviou-me até aqui, para encontrar-te."
A samaritana, ao ouvir que Jesus era o Messias, saiu para anunciar ao seu povo que o Salvador tão esperado havia chegado.
Deus é Deus de quem o procura, de quem o deseja, mas acima de tudo, Deus é Deus para quem sabe que precisa. [16]
Referências
[1] Russel Norman Champlin. O Novo Testamento Interpretado: versículo por versículo. Volume 2. São Paulo: Hagnos,2014.
[2] João 4:7b, 9. NOVO TESTAMENTO Interlinear Analítico, Grego - Português, Cultura Cristã. 2015. p. 364.
[3] BÍBLIA SAGRADA – Edição pastoral. Editora: Paulus. 2005.
[4] Eclesiástico 25:25-26. Eclesiástico Hebraico – Português. Doaldo F. Belém. Copyright 2015. | Eclesiástico Bíblia Pastoral.
[5] Eclesiástico 26:14. (Edição Pastoral).
[6] Eclesiástico 25:18. (Edição Pastoral).
[7] Eclesiástico 25:12. (Edição Pastoral).
[8] Eclesiástico 42:14. (Edição Pastoral).
[9] Palavra grega para se referir ao marido.
[10] João 4:10-18. NOVO TESTAMENTO Interlinear Analítico, Grego - Português, Cultura Cristã. 2015. p.364-365.
[11] The Chosen (Os Escolhidos). Jesus e a mulher samaritana. - 8º Episódio. 1ª Temporada. Dublado. You tube.
[12] NOVO TESTAMENTO, Grego-Português, 2015, p 736.
[13] NOVO TESTAMENTO, Grego-Português, 2015, p 717.
[14] NOVO TESTAMENTO, Grego-Português, 2015, p 866.
[15] João 4:19-29. NOVO TESTAMENTO Interlinear Analítico, Grego - Português, Cultura Cristã. 2015. p. 365-367.
[16] Marcos 2:17.
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