Então, aproximando-se, Pedro disse: Senhor, quantas vezes meu irmão pecará contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete?
Jesus lhe disse: Não te digo até sete, mas até setenta vezes sete.
Por isso, o Reino dos Céus é semelhante a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. E, começando o rei a ajustar contas, foi-lhe trazido um servo que lhe devia dez mil talentos.
Como o servo não tinha recursos para quitar a dívida, o rei determinou que ele fosse vendido juntamente com sua família e todos os seus bens, a fim de que parte da dívida fosse recuperada, conforme o costume legal da época.
O servo, desesperado, lança-se ao chão em atitude de súplica, pedindo ao rei que lhe conceda mais tempo e prometendo pagar toda a dívida, ainda que isso fosse humanamente impossível.
O rei daquele servo, profundamente tocado por compaixão, não se limita a conceder um prazo maior para o pagamento, como o servo havia pedido, mas libera o servo completamente e perdoa-lhe a dívida impagável, demonstrando um imenso perdão e cheio de graça.
Saindo da presença do rei, o servo, que havia acabado de receber o perdão de uma dívida impagável, encontra um conservo que lhe devia apenas cem denários, uma quantia pequena e totalmente pagável. Em vez de agir com misericórdia, ele o segura com violência, sufocando-0 e exigindo o pagamento imediato, revelando incoerência e dureza diante do perdão que havia recebido.
O conservo, humilhando-se e lançando-se ao chão, faz exatamente o mesmo pedido que ele havia feito ao rei. O conservo pede mais tempo e promete pagar toda a dívida.
O servo perdoado recusa-se a conceder-lhe perdão. Em vez de mostrar misericórdia, toma uma atitude dura e legalista, mandando o conservo para a prisão até que toda a dívida fosse paga.
Os outros conservos, vendo o que havia acontecido, entristeceram-se profundamente diante da injustiça e foram relatar ao rei tudo o que ocorreu.
Então o rei, chamando o servo ingrato, disse-lhe: Servo mau, toda aquela dívida te perdoei, porque me suplicaste. Não deveria você também ter misericórdia do conservo seu, assim como eu tive misericórdia de você?
O rei, indignado com a falta de misericórdia do servo, revoga o perdão concedido e entrega o servo aos carcereiros responsáveis por aplicar punição severa e tormento até que toda a dívida fosse quitada.
Então Jesus conclui a parábola afirmando que o seu Pai celestial fará o mesmo com cada um dos seres humanos, se não concederem ao seu próximo um perdão genuíno que proceda do íntimo do coração.
Quem foi alcançado por misericórdia infinita não pode viver oferecendo misericórdia finita. Nossa dívida diante de Deus é infinitamente maior do que qualquer ofensa ou transgressão que recebemos, e o perdão que nos foi concedido é pura graça, imerecida e abundante.
Quando nos recusamos a perdoar, revelamos nossa dureza de coração e esquecimento da nossa própria condição humana caída. Quem não perdoa demonstra que ainda não compreendeu o tamanho da dívida que lhe foi cancelada na Cruz do Calvário.
O juízo de Deus será sem misericórdia para todo aquele que não usou de misericórdia com o seu próximo. O perdão no Reino dos Céus não é opcional, é uma evidência de pertencimento a ele. O Reino dos Céus é um lugar onde pessoas perdoadas se tornam, necessariamente, perdoadoras.
Nota ao leitor: O texto “O devedor sem compaixão” é uma tradução explicativa do texto de Mateus 18:21-35.
Um talento corresponde a cerca de 34 quilos de prata. Em termos salariais, um talento equivale a 6 mil denários. Por sua vez, um denário correspondia ao pagamento de um dia de trabalho de um trabalhador comum.
Logo, um talento equivale a 6 mil dias de trabalho. E 10 mil talentos equivalem a 60 milhões de denários; isso representa 60 milhões de dias de trabalho de um trabalhador comum. Ao convertermos esse total em anos, considerando 365 dias por ano, temos aproximadamente 164 mil anos de trabalho ininterrupto, sem descanso.